sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Olhar para trás

A manhã estava gelada e os ossos doíam à medida que os dois ficavam estáticos na grande plataforma deserta. A cidade pequena ainda estava começando a ser banhada pelo sol nascente, mesmo já estando num momento mais avançado na manhã, típica de um inverno setentrional. O frio e o vento contornavam aquela situação com uma dramaticidade muito pesada para o que poderia ser uma simples despedida.
Ambos, lado a lado, fitavam os trilhos do trem que seguiam ao longo do fundo do vale, cercado por montanhas nevadas por ambos os lados, de onde pipocavam algumas pequenas cidades.

Então, num súbito momento, quebrando o silêncio matutino que, a cada momento tornava-se mais desagradável, o trem fez a curva e apareceu no vale. Veloz. E se aproximava sem hesitar da plataforma. Exatamente quando o ponteiro mais estreito do relógio antigo da estação virou o minuto, o trem parou completamente. Não havia atraso. Nunca havia atraso. Bem que se houvesse. Talvez haveria tempo para se mudar de ideia. Mas atrasos eram difíceis até de se conceberem no imaginário das pessoas daquele lugar.

A mochila foi pega.

Um beijo foi dado.

Um abraço coube no momento, mas a tensão impediu que ocorresse.

Uma frieza não natural envolvia toda aquela despedida, juntamente com o silêncio. Este que foi abruptamente quebrado, por bem, apenas por um punhado de palavras:

- "Boa sorte! Volte bem! Vá e não olhe para trás! -

Olhar para trás poderia tornar tudo muito mais complicado do que já estava. O peso da decisão era imenso.

Lentamente, com sua mochila em mãos, ele virou-se para a porta aberta do trem e com passos lentos e firmes, mas tentando vacilar, caminhou em direção à borda da plataforma. Ela, amarga, via a silhueta bem definida de seu amado caminhando para longe, sem muita escolha. Como ela queria que tudo isso jamais fosse necessário. Tudo que ela queria era uma vida tranquila. Continuar com sua pequena mercearia e ele com sua carpintaria. A pequena vila era suficiente para a felicidade deles. Até que os estandartes vermelhos foram estendidos por toda a cidade e tudo desmoronou.

O caminho dele para a plataforma parecia infinito e sombrio. Não era possível descrever a cena de maneira diferente de uma sombra, que caminhava pelas sombras. Isto se estendeu até o breve momento no qual uma pequena fresta do Sol penetrou pela pequena fenda deixada entre o trem e a marquise da plataforma. Era uma luz ainda fraca, mas deu uma pequena fração de esperança no retorno. Ele, com medo, dava um passo após o outro e com um pequeno fragmento de hesitação, pisou na parte iluminada do piso. A luz iluminou a bota preta, depois subiu pelas pernas até iluminar toda a farda preta que vestia e a faixa vermelha que, vergonhosamente exibia em seu braço esquerdo. Ao entrar no trem, as portas fecharam se em suas costas e, imediatamente o trem praticamente vazio partiu.

Partiu deixando para trás a moça desolada, perdida na penumbra.

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Desde aquele dia o tempo tem passado da maneira mais vagarosa o possível. Os meses caminhavam lentamente, o trabalho era enfadonho e as noites mal dormidas. As notícias eram as piores possíveis e não havia pista de como tudo poderia terminar.

Não havia como saber se ele voltaria algum dia para casa. Até lá, manhã após manhã, ela ouviria o despertador antigo tocar, pontualmente às 6:30 da manhã, do lado vazio da cama. Ela teimava em não desligar, para não correr o risco de esquecer daquele arrependimento que trazia consigo. Jamais se perdoaria, de ter pedido para que ele fosse sem ao menos olhar para trás. Uma última vez.