terça-feira, 23 de outubro de 2012

"Revolução dos Bichos"

De dois em dois anos, a coisa se repetia na Fazenda Zoionumbigo: chegavam ratos e raposas, um bando deles, querendo fazer amizade com as ovelhas que ali pastavam. A fazenda era muito grande, e os ratos e raposas tinham que ir de canto em canto para conversar com as ovelhas, que ficavam espalhadas a se perder de vista.

Toda vez que isso acontecia, as inocentes ovelhas esperavam que as coisas melhorassem. Porque as coisas não iam bem ali na fazenda. Os barracos onde se guardavam as ferramentas e ração estavam caindo aos pedaços, e as poucas árvores que ali havia não davam conta de fazer sombra pra tanta ovelha. Além disso, não era raro que, ao nascer do Sol, percebessem que algo ou alguma ovelha havia sumido durante a noite, obra de lobos e outros bandidos que havia ali por perto.

Quando os ratos e as raposas chegavam, então, sorrindo e cheios de promessas para ajudá-las, as ovelhas lhes davam cheque em branco para eles cuidarem da fazenda.

Mas nos anos que se seguiam, as ovelhas não viam aquelas melhorias acontecerem. Tudo que viam só eram as reformas dentro de alguns barracos, onde os ratos e raposas passavam a morar. As ovelhas não podiam entrar ali, mas algumas espiavam o que acontecia ali dentro, e às vezes contavam o que viam.

Assim, vinha raposa, saía rato, o barraco da ração continuava caindo aos pedaços, e o campo sem sombra.

Um dia aconteceu de bater uma tempestade, e um vento muito forte destelhou e derrubou as paredes do barraco dos ratos e das raposas. Então todas as ovelhas puderam ver, com os próprios olhos, o que havia ali dentro: um punhado de frutas frescas, muito queijo, pão e água. Os ratos e raposas, corados, ainda tentaram esconder o luxo, mas era tarde. As ovelhas, indignadas, atiraram-se aos restos do barraco, destruindo o que ali sobrava.

Os ratos e raposas fugiram e chamaram reforços, para controlar as ovelhas. Dias depois, com o barraco reconstruído, parecia que nada havia acontecido. As ovelhas voltaram a se espalhar pelo pasto, e os ratos e raposas voltaram a habitar seu barraco.

Um cachorro, que observava tudo isso, decidiu chamar as ovelhas pra conversar, e dizer que elas precisavam se unir, entre elas e com outros animais que queriam ajudar, ali na vizinhança, pra botar ordem, de uma vez por todas, naquele barraco.

Durante os meses seguintes, ovelhas, cachorros, gatos, macacos, vacas, cavalos e coelhos se reuniram, toda semana, planejando o que fariam na próxima tempestade. A indignação e o desejo de mudança alimentavam a bicharada como as frutas e os queijos alimentavam os ratos e as raposas.

Até que um dia, o céu começou a escurecer. A bicharada, atenta, ficou pronta. E a tempestade começou. Dessa vez, unidas e com reforços, as ovelhas estavam preparadas...

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Nota da autora: Este conto foi feito para um programa apresentado na Rádio Itaperuçu FM nas eleições municipais de 2008. É aos moradores daquela cidade, e aos de Curitiba, que enfrentarão o segundo turno para a Prefeitura no próximo domingo, que dedico este conto.