terça-feira, 30 de outubro de 2012

Setenta e Sete Faces

Em uma noite estranhamente fria para a primavera ocorreu uma cena bastante peculiar. Mas as únicas criaturas que puderam apreciar tal cena eram as mariposas e morcegos que voavam no céu escuro buscando comida e o caminho de casa.

No terraço da Loja de Espelhos, a Artífice de Reflexos e sua amiga de longa data, a Senhora, recostavam-se em pesadas cadeiras de balanço em meio a um jardim de vasos. De onde estavam, um dos pontos mais altos da região, elas podiam ver o céu estrelado e as luzes da cidade descendo os morros como um tapete luminoso. Elas balançavam as cadeiras calmamente, conversando entre longas pausas.

- Lembra do Espelho do Bem e do Mal? – indagou a Senhora, depois de um silêncio particularmente longo e grave.

- Claro que me lembro. Está satisfeita com ele?

- Na verdade, não. Eu queria um espelho que me mostrasse a verdade como ela realmente é. Eu, como realmente sou. O Espelho do Bem e do Mal não faz isso.

- Mas é claro que não faz. – A Artífice soltou algumas baforadas de seu cachimbo antes de responder às perguntas que a Senhora não verbalizara. – O Espelho do Bem e do Mal reflete apenas o bem e o mal. Isso está longe de ser toda a realidade. Dificilmente uma pessoa é assim tão preto-e-branca. Existem muitas cores e nuances numa só criatura. O bem e o mal podem ser grandes norteadores, mas são apenas duas facetas.

- Você fala como se a realidade não fosse uma só.

- Oh, ela é! Mas apenas a um instante por vez. No instante seguinte, já é outra realidade. E não estou falando de pontos de vista diferentes. De um mesmo ponto de vista, a realidade pode alterar.

- Ou seja... não existe apenas uma realidade.

- Não da forma que você imagina. Se quiser conhecer a realidade como ela realmente é, posso lhe vender a um preço bastante módico um espelho de seu agrado.

Estava até demorando para a Artífice de Reflexos mostrar o seu lado comerciante na conversa. Eram raras as vezes em que as duas conversavam sem fechar um único negócio.

- Eu sabia que a oferta logo viria... Conte-me, o que faz este espelho?

- Estou falando do Espelho de Setenta e Sete Faces. Não que ele mostre exatamente setenta e sete faces, mas eu fiquei com preguiça de contar depois que passou de cinqüenta e três. Ele mostra qual das suas facetas está dominante no momento em que você o olha. Como eu disse, uma pessoa não possui apenas uma realidade, mas várias que se alternam, sobrepõem, e até mesmo se contradizem.

"Algumas facetas usamos apenas durante uma fase da vida, outras aprendemos a vestir apenas quando os anos já estão muito avançados. Algumas nos forçamos a usar por cima de outras, algumas são forçadas sobre nós – embora estas se quebrem com frequência. No final, poderíamos encher incontáveis salões com todas as faces que usamos durante uma vida, e nenhuma delas seria a absoluta representação de nosso ser.

A Senhora não falou por um longo período. Durante esse silêncio morno, recordou-se de todas as feitiçarias que fizera em sua torre, de todos os monstros que criara e das milhares de páginas que escrevera e guardara nas gavetas de sua escrivaninha. Todo personagem, toda criação, de certa forma, refletia uma de suas faces. Não todas, pois nem todas existiam para serem partilhadas, mas aquelas que ela desejava dividir com os outros estavam, de um jeito ou de outro, personificadas em suas criações.

Por fim, voltando a balançar calmamente a sua cadeira de balanço, a Senhora disse:

- Acho que já possuo um espelho desses.