terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Passagem da Aventura

O vento soprava forte, ameaçando desviá-lo do rumo com uma tempestade em seu encalço. Mas o Capitão não tinha medo. Acabara de formar sua tripulação, abastecera-se com três vezes mais que os mantimentos necessários até atingirem o próximo ponto de desembarque, preenchera todos os vãos de sua cabine com mapas. Estava preparado para a maior aventura de sua vida, e não tinha idéia de quanto tempo ela duraria. Ainda assim, percorreria cada quilômetro quadrado do céu para encontrar montanhas flutuantes, nem que levasse toda sua vida.

Instrumentos calibrados, tripulação ansiosa, o vento de mudanças balançando os cabos e cordas. O dirigível decolou, deslocando-se levemente para o lado com o vento, mas a Timoneira forçou as hélices a estabilizar a máquina. Mantiveram a altura baixa por um longo tempo, como que dando um último adeus àquela terra. Ninguém dizia "até logo", pois inconscientemente sabiam que aquela viagem não seria breve. Ou até se teria retorno.

As crianças da cidade próxima ao descampado onde o dirigível estava pousado viram a grande máquina ogival se levantar por trás do bosque, acompanhando sua trajetória com olhos arregalados e atentos. Sonhos de terras distantes e inexploradas enchiam suas cabeças e eles trocavam as idéias mais mirabolantes sobre as futuras descobertas do Capitão e sua tripulação. Os trabalhadores das construções levantaram seus olhos de suas marmitas à passagem do dirigível. Assim como seus sonhos de criança, viram a engenhoca voadora decolar no ar, subindo e se afastando cada vez mais, em direção a seu destino, cada vez mais longe deles.

Sobrevoando os campos, o Capitão viu as aves baterem em revoada quando passaram pelas copas das árvores mais altas, quase tocando-lhes as folhas. Nas clareiras, animais que nunca haviam encontrado humanos olhavam assustados para aquele lento predador. Alguns se fingiam de mortos, esperando passar despercebidos. Mas o dirigível não incomodou a nenhum deles, passando indiferente pelas florestas e campos.

Enfim, chegando na linha de areia da costa, o dirigível subiu acima das nuvens. Os ventos de tempestade o seguiram, mas agora passavam por baixo da sua rota.

Enquanto isso, a ventania assolava aqueles que observaram sua passagem. Alguns puxavam os casacos para mais perto do corpo, segurando os cotovelos para se esquentar, ou tremiam a cada lufada que lambia seus corpos. Mas nem mesmo os animais que viram o dirigível passar se assustaram com o vento. Ficaram todos em seus postos, divagando sobre a Máquina Voadora que passara sobre suas cabeças, até a chegada da tempestade prometida pelos ventos de mudança. E então, dentro deles... tudo mudou.