sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Desconhecida

Seus olhos estavam abertos, mas nada viam. Foram esquecidos em algum lugar, não se sabe onde, e ali ficaram, inertes. Passariam por inexpressivos se não fosse o pouco a mais de brilho aquoso no seu inferior, e um não sei quê de triste em sua pupila opaca.

- Morte na família?

Piscou e sobressaltou-se. A pessoa que se sentou ao seu lado a observava, com pena.

Não queria conversar com estranhos. Não nesse momento. Queria chegar logo em casa e dar a notícia, mas ao mesmo tempo não queria. Não queria acreditar que todo seu esforço tinha sido em vão. Teria feito algo de errado? Dissera alguma daquelas coisas que se diz sem querer ofender, mas que por alguma razão ofendem?

Tudo lhe parecera ter ocorrido tão bem. As risadas, os passeios, um início de rotina. A conversa colocada em dia, os presentes e elogios trocados. Dera o seu máximo para ser uma boa visita, e recebera em troca hospitalidade e carinho.

Talvez fosse ela. Que até então era uma quase desconhecida. Do seu passado conturbado muito pouco sabia. Nasceu na Polônia, e com a Segunda Guerra Mundial foi morar na Alemanha. Aqui ou ali, em algum momento, passou pelos campos de concentração nazistas. Mudou-se com a família para o Brasil, onde se casou e teve um filho. Depois da morte dos pais, foi morar com a família no Canadá. Lá perdeu marido e filho. Hoje ainda mora lá, e passa os invernos nos Estados Unidos. Sozinha. Incomunicável.

Parecia que, no tempo que passara ao lado dela, conhecera apenas uma fugaz face de sua tia. A face daquele presente, relaxada e sorridente, de muitos amigos e família.

Não havia qualquer resquício nela desse passado aparentemente difícil e duro. Um passado que deixaria cicatrizes profundas, irremediáveis, em qualquer um.

Até o dia em que dela se despediu. Naquele dia vislumbrou, por um instante fugazmente eterno, o que não vira em todo aquele tempo.

“- Nos vemos no Brasil!

- Eu nunca mais voltarei ao Brasil.”

E ela soube que era verdade, mais verdadeira que qualquer outra que ouvira dela. A despedida era para sempre.

- É como se fosse.