terça-feira, 13 de novembro de 2012

Diagnóstico: humano

- Diga-me, é… Lauro. O que tem te incomodado?

- Então, doutor. Faz tempo que estou pra vir num oftalmologista. – Remexe-se incomodado na cadeira. Respira fundo. – O problema é que choro demais.

- Chora demais?

- Isso.

Silêncio.

- Bem, o senhor tem tido problemas pessoais, na família, no trabalho?

- Não, está tudo bem.

- Depressão?

- Nunca tive.

- Algum caso na família?

- Até onde eu saiba, só um primo distante.

- Avós?

- Não.

- Seus familiares sabem disso?

- Acho que não... é complicado...

Seus olhos marejam.

- Tudo bem, vejamos...

- É tão constrangedor, doutor, às vezes estou perto de outras pessoas e de repente começo a querer chorar. Preciso sair, porque não consigo segurar por muito tempo.

Aceita um lenço. Seca os olhos e embaixo do nariz, que já escorria.

- Acho que sei o que é isso.

- Sabe?

Para de secar o rosto.

- Sei. É um distúrbio das glândulas lacrimais.

Impressiona-se com a resposta.

- Nossa, não sabia que isso poderia acontecer.

- Não é muito comum, mas pode.

- O que causa isso, doutor?

- Não se sabe ao certo, apenas sabemos de fatores de risco, como alimentação desequilibrada, sedentarismo, contato contínuo com poluição, frustrações, excesso de trabalho no computador, falta de sonhos, ou alguma reação alérgica.

- E tem tratamento?

- Sim, podemos amenizar os sintomas, e até eliminá-los totalmente.

- Nunca mais vou chorar?

- Pode ser que nunca mais chore.

Até sorriu.

- Estou receitando para o senhor dois remédios, este você toma uma vez ao dia, e este outro, duas vezes, uma pela manhã e outra pela noite. Use-os até acabarem. Também compre essa pomada, passe-a em volta dos olhos antes de dormir.

- Só isso?

- Só. A partir da primeira semana já sentirá diferença. O senhor se sentirá até mais corajoso, otimista, mais frio e racional.

- Maravilha, doutor!