sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Nada Mais que o Ordinário

Era uma terça-feira como todas as outras terças-feiras. O sol de meio-dia queimara as carecas dos homens sem chapéu, enquanto que o fim da tarde prometia uma pancada de chuva pouco refrescante. Como sempre. Todo verão os dias seguiam assim. Às vezes a chuva vinha no meio da tarde, às vezes apenas no começo da noite, mas sempre vinha. Era verão, e ele seguia sem surpresas como o verão passado.

O Menino voltava para casa depois da escola com a barriga roncando. Todo dia ela começava a roncar no meio do caminho, ansiosa pelo almoço que sua mãe estaria preparando naquele exato momento. Ela era sempre pontual com as refeições. Aliás, em tudo.

Em sua mochila ele trazia uma prova com uma nota baixa. Era sempre assim nas provas de história e geografia. Para ele, matemática e física eram as únicas coisas inventadas pelo homem que faziam sentido. Já as guerras, conquistas e derrotas da humanidade não conseguiam encontrar espaço para se alojar em sua mente, visto que o grande motivador de quase todos esses grandes marcos históricos era a mera ganância de um homem. Apesar de não conseguir entender, aquilo não surpreendia o Menino. O ser humano era assim. Sempre haveriam histórias de batalhas, cobiça, guerras, lucro, conquista e morte. A história seguiria o mesmo rumo que sempre seguiu, apenas mudando o nome das nações e a tecnologia das épocas. Nada realmente mudava com o passar dos séculos.

Ele comeu seu almoço e foi interrogado pela mão com as mesmas perguntas que ela sempre fazia depois de um dia de prova. Reprovou-o como sempre reprovava depois de uma nota baixa e, em seguida, sentindo remorso, incentivava-o a se sair melhor da próxima vez. Sempre haveria uma próxima vez.

Então foi para seu quarto, como de costume, e jogou-se na cama. Enquanto encarava o teto completamente branco e liso do seu quarto, a luz que entrava pela janela diminuiu repentinamente. À princípio pensou que poderia ser um eclipse solar, mas não haviam falado nada sobre isso no rádio pela manhã. Uma notícia dessas com certeza teria sido veiculada em algum momento daquela semana pela mídia – como sempre faziam.

Correndo para a janela, o Menino levantou seus olhos para o céu tentando buscar a fonte daquele sombreamento. O que viu fez seu queixo cair de espanto e seu coração parar por meio segundo. Bem no quintal de sua casa, um pequeno dirigível pousava suavemente na grama, mas ainda causando certo tremor no chão. Rapidamente ele foi até a porta dos fundos da casa. A essa altura, alguns membros da tripulação já haviam saltado pelas janelas e estavam agora fincando estacas na terra para amarrar as cordas que impediriam a aeronave de decolar com o vento.

Apenas vagamente ciente de que sua mãe gritava exasperada de uma das janelas do segundo andar, o Menino viu com espanto que agora a tripulação carregava uma maca para fora do dirigível. Quando se aproximaram dele, pôde ver que havia um home já de idade avançada nela e sua roupa estava metade tingida de vermelho escuro. Uma mulher – aparentemente a única da tripulação – correu na frente dos outros e implorou por ajuda, qualquer coisa que fosse salvar a vida do Capitão. O Menino apenas concordou com a cabeça e abriu mais a porta, dando passagem para o peculiar grupo de marujos do ar.

Como ele ia dizendo para seus botões, era um dia como outro qualquer. Um dia quente de verão. E não caiu uma única gota de chuva naquela tarde.