sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O destino de cada um

Uma velhinha se encontrava sentada no banco duro do hospital, exatamente entre os quartos 302 e 303. Ela passara o dia todo ali, em silêncio, entretida com uma revista sobre celebridades. O único barulho que a acompanhava eram os passos apressados dos funcionários.

Dado o passar das horas e a idade avançada uma enfermeira chamou sua atenção, perguntando se precisava de algo.

- Certamente não. – Respondeu sem nem erguer os olhos.

- O horário de visitas vai acabar daqui uma hora senhora.

- Não precisarei de muito mais tempo.

Sem entender, a prestativa enfermeira apenas foi fazer algo mais importante do que estar ali incomodando a vida da senhorinha.

- Então nos encontramos de novo. – Dessa vez o interlocutor não era a simpática e prestativa enfermeira, mas um jovem homem de sobretudo preto e calça jeans. Ele se acomodou no banco duro ao lado da velhinha e pôs-se a olhar um bonito relógio de bolso que estava aberto em sua mão.

- Você é sempre muito pontual. – Respondeu ela, largando a revista de lado e pegando uma pequena caixa de costura que estava descansando aos seus pés.

- E você certamente já teve passatempos melhores. – Retrucou olhando a revista contando as intimidades do novo casal mais aclamado da mídia.

A velhinha soltou uma risada abafada e tateou o emaranhado de fios dentro da caixa, puxando um azul escuro muito longo. Alguns segundos se passaram em silencio enquanto ela o desenrolava dos demais. O homem apenas olhava para seu relógio, um pouco entediado.

Sem uma palavra, ela retirou uma grande tesoura do fundo da caixa, mediu o fio com olhos precisos, como se soubesse exatamente em qual milímetro iria cortar.  E então o fez, mas seu ato foi misturado a uma grande algazarra. No mesmo instante em que a tesoura rompeu o fio, um grito cortou o posto de enfermagem e passos soaram pelo corredor. 

Era gente para todo o lado, enfermeiras com seus aparatos romperam dentro do quarto e tentavam acordar a senhora idosa do 303. Enquanto isso o homem de preto fechou seu relógio, levantou do banco e foi para dentro do quarto.

- Acredito que nos veremos logo – Disse a velhinha, guardando seus fios na caixa de costura.

- Claro que nos veremos. Você é tanto quanto inevitável. – Riu da sua própria piada e se despediu com um aceno.

Entrou no quarto, em meio as enfermeiras ainda agitadas e cumprimentou a senhora ao lado da cama.

- Olá Rebecca. Está na hora de irmos. – Suas palavras encontraram o olhar atordoado da mulher.

- Eu morri?

- Apenas encontrou o seu destino. – Disse enquanto olhava o corpo sem vida na cama. – Ou talvez o destino tenha te encontrado. 

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Nota da autora: 
Não consegui postar terça-feira por causa de uma viagem que tive que fazer. Muito obrigada a Cinthia por ter trocado de dia comigo! :)