terça-feira, 6 de novembro de 2012

Catando Ventos

A Senhora e a Artífice de Reflexos tinham muitos assuntos a tratar, por isso se encontravam com frequência nas últimas semanas. Quando o ar estava claro, a Artífice levava as cadeiras de balanço para o terraço de sua loja e as duas olhavam o céu estrelado enquanto trocavam pensamentos e experiências.

Mas não era assim que o céu se encontrava. Pesadas gotas de chuva caíam no pequeno quintal aos fundos da loja. A Artífice levou, então, as cadeiras de balanço para a varanda, juntamente com uma pequena mesa baixa onde dispôs uma bandeja com um bule de chá quente. A chuva prosseguiu por diversos minutos sem arrefecer, formando poças na velha calçada que serpenteava sobre a grama.

A Senhora observou por alguns minutos o reflexo turvo e interrompido de um cedro numa poça particularmente grande. Sua mente divagou para uma conversa que teve anteriormente com a Artífice, continuando a linha de pensamento como se não houvesse existido pausa.

- Por que não conseguimos criar espelhos que reflitam a verdade? Por que sempre mostram apenas uma parte dela ou uma imagem distorcida?

- Ora, porque então não seriam espelhos – a Artífice falou com calma em um tom absoluto, tirando o seu cachimbo do bolso do casaco para acendê-lo. Quando a conversa se aprofundava, ele a ajudava a pensar.

- Seriam o que, então? Cata-ventos? – a Senhora debochou de leve. Às vezes as respostas enigmáticas da velha amiga precisavam de um incentivo para serem desenvolvidas.

- Cata-ventos? Não, a simbologia dos cata-ventos é completamente outra. Espelhos apenas refletem uma imagem da verdade. Essa é a função deles, nada menos e nada além. Não se pode esperar a verdade completa deles, pois apenas a verdade pode responder por ela mesma. Espelhos apenas refletem o que se encontra diante deles. Sempre achei infrutífera a sua busca por um espelho que revelasse sua verdadeira natureza interior, mas agora você está pronta para me ouvir. Isso não é algo que alguém consiga colocar na frente de um espelho. Não é algo que se vê, mas sim algo que se sente.

A Senhora seguiu calada, ainda observando o reflexo turvo do cedro na poça da chuva. O cheiro de água gelada invadia suas narinas e um súbito vento gelado arrepiou sua pele. Ela olhou para cima, e repentinamente o céu anuviado clareou sua visão.

- É algo como a tempestade, então – ele concluiu, falando pausadamente na mesma proporção em que aquele pensamento ia tomando forma em sua mente. – Podemos ver as nuvens, tocar a chuva, ver os raios e ouvir o trovão. Apesar de todos estes elementos poderem existir em momentos separados, apenas com todos eles juntos se forma uma tempestade. Ela se manifesta fisicamente, mas é um conceito completamente abstrato e complexo, composto por diversos elementos mais simples. A nuvem está para a tempestade assim como os espelhos estão para nossos verdadeiros "eus". É apenas a parte visível de um todo muito maior.

- Eu iria mais longe e diria que você está tentando encontrar o sentido da vida em poças d'água, minha cara – essa foi a vez da Artífice zombar a resposta da amiga, mas a réplica que se seguiu a surpreendeu.

- Ora, é para isso que servem os cata-ventos.