terça-feira, 27 de novembro de 2012

Terra Firme

As botas de couro gastas subiam e desciam conforme Shin se espichava na vã tentativa de ver algo além da espessa e quase sólida parede de névoa que cercava o barco voador. Seu estômago fazia movimentos estranhos e sua mão suava, se tornando pegajosa dentro da luva.

Shin era um garotinho de feições orientais, assim como todos em seu barco, e baixo demais para a sua idade. Ele nascera ali e por todos os onze anos que se seguiram ali permaneceu. Vivendo entre piratas grandes e mal encarados que viviam contando histórias de barcos que pilharam e tesouros escondidos. Contavam sobre cidades flutuantes nunca vistas, feitas com paredes de ouro branco, onde você poderia conseguir tudo o que quisesse. Aquelas cidades povoavam seus sonhos com uma frequência bastante grande.

O fato é que Shin ainda era jovem demais para sair do barco. E depois de dias enchendo o saco de um de seus amigos mais velhos, conseguiu permissão para uma volta. Naquele dia iam parar num porto para abastecer os mantimentos e trocar mercadorias um tanto quanto duvidosas. Era um porto escondido, frequentado apenas pelos piratas. Não era seu ideal de lugar, mas era mais do que poderia esperar. Tinha exatamente dez minutos. Tinham que ser os dez minutos mais bem aproveitados da sua vida.

Quando finalmente a nevoa começou a se dissipar e ser substituída por uma leva de fumaça cinza e mal cheirosa, o coração do pequeno pirata deu um pulo, estavam chegando.

- Vamos lá cambada, não temos muito tempo. - Anunciou Daichi. - E cuidado com Sebastian, se alguém for passado para trás por ele de novo, não vai nem pisar no barco de volta. - Ao terminar de dizer isso, pigarreou e cuspiu no chão. - Se mexam.

O navio ancorou e Shin correu. Correu como nunca havia corrido antes, ávido por respirar o novo ar, ver tudo ao redor, sentir. Ávido por conhecer. Saltou do navio e quando suas botas tocaram o chão teve a sensação que seus ouvidos foram destampados. Burburinhos, gritos, vozes. Centenas, milhares. Não conseguia distinguir uma só palavra. O cheiro que antes era apenas mal cheiroso, agora se tornara insuportável. Cheiro de suor, de pessoas. Muitas pessoas. Fuligem, madeira, tabaco e cheiros que nunca tinha sentido antes. Havia um que queimava seu nariz, tentou em vão tampa-lo.

O que mais lhe assustou, porém, foi quando sua vista se acostumou ao ambiente cinzento e esfumaçado, ganhando formas, contornos e cores. Era um mundo completamente diferente. Homens e mulheres andando de um lado para o outro, carregando grandes caixas, fumando cachimbos e trocando mercadorias. Deu mais alguns passos e foi abordado por um homem baixinho com um olho de vidro duas vezes maior que o olho normal. Ele se ajoelhou na sua frente e sorriu, mostrando uma boca com mais buracos que dentes. Sua coluna enrijeceu e seus pelos da nuca eriçaram. Era o homem mais estranho que já havia visto.

- E aí, jovenzinho, não quer comprar nada?

Antes mesmo dele conseguir abrir o baú para mostrar o que tinha lá dentro Shin deu um passo para trás, virou-se e correu. Correu muito mais do que havia corrido antes para sair. Não sabia para onde estava indo. Esbarrou em tudo que encontrou pelo caminho, ouviu alguns homens gritando palavras em uma língua desconhecida, e algo lhe dizia que não era amigável o que eles haviam proferido. Sua garganta estava se fechando e seus olhos começaram a lacrimejar. Foi quando ele viu a forma tão esperada e familiar.

Correu mais um pouco, segurou nas bordas do barco e se arremessou para dentro, tropeçando e rastejando até o seu canto escuro favorito. E lá ficou, sentado, abraçando os joelhos e com o rosto entre as pernas.

A liberdade era assustadora, sufocante, cinzenta, mal cheirosa e barulhenta.

Quem sabe algum dia lhe daria uma segunda chance.