terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Olhos Azuis

A Leoa arrastava as patas cansadas sobre a terra poeirenta. Precisava chegar ao rio antes que perdesse todas as suas forças. Estava muito machucada. Suas feridas antigas e recentes estavam abertas, deixando um rastro pegajoso no chão. Sentia o cheiro de água no ar. Apenas mais alguns metros e ela chegaria ao rio.

Porém quanto mais tempo passava, mais suas feridas a machucavam. A Leoa não aguentou, tombando ao longo da estrada seca e dura.

Quando acordou, ficou surpresa ao sentir o cheiro de água. E também de grama e muitas outras plantas. Tentou se levantar, mas antes que o fizesse sentiu que as patas e o corpo estavam envoltos com ataduras de folhas e cipós. Olhou em volta, percebendo que se encontrava à beira de um rio e cercada por uma vegetação exuberante. Sentada numa pedra à beira do rio havia uma moça jovem com longos cabelos azuis. Sua veste era simples e longa, de um azul mais claro, e quando se virou para olhar sua paciente, a Leoa percebeu que ela tinha olhos azuis muito escuros, quase negros.

- Por que está assim, tão machucada? Por que todas as suas feridas estão abertas? - a moça perguntou, ao que a Leoa respondeu:

- Apesar de eu ver as virtudes no coração dos meus atacantes, eles não enxergam as maldades que me fazem. Até que vejam essa maldade, minhas feridas ficarão sempre abertas.

A moça de cabelos azuis saiu da pedra em que estava e se aproximou da Leoa. Ela trazia consigo um frescor revigorante, um cheiro de chuva e orvalho matinal que acalmou bastante a grande felina. Então se inclinou e beijou-a na testa peluda e macia, sem temer suas presas e garras.

- Eles talvez nunca abram os olhos. Mas existe outra solução: que você feche seus olhos para eles. Apenas assim suas feridas fecharão completamente e você recuperará toda a sua força. A Rainha da Selva não deveria sofrer esse tipo de injúrias.

Foi como se a moça de cabelos azuis lançasse um feitiço sobre seus olhos. Eles arderam muito e ficaram marejados por muitos minutos, tanto que a Leoa precisou se levantar, apesar de suas dores, e lavar os olhos no rio. As ataduras de folhas escorregaram de seu corpo, agora completamente curado, e seus olhos brilhavam azuis como duas pedras preciosas muito claras.

Quando olhou em volta procurando a moça, a Leoa não encontrou ninguém. Porém, das águas do rio veio a voz doce e suave da moça:

- Estes são seus verdadeiros olhos. Não permita jamais que apaguem sua luz.

E a voz seguiu cantando correnteza abaixo uma melodia alegre e inspiradora que permaneceu no coração da Leoa por muitos anos depois daquele curioso encontro com a Filha das Águas.