quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A parceira do silêncio

Ela olhava para ele enquanto ele mantinha os olhos fixos no copo, uma expressão serena que escondia as lágrimas que não queriam aparecer. Após um instante de silêncio, o rapaz apenas fez um tímido sinal afirmativo com a cabeça, esperando com todas as suas forças que isso fosse suficiente.

Um peso mórbido carregava o ar. Não sobre todo o ambiente, apenas sobre os dois; nas outras mesas as pessoas conversavam alto, os garçons andavam para lá e para cá. Ninguém ali reverenciava aquele momento triste.

A moça, entendendo por fim o silêncio desconfortante, tocou timidamente a mão do rapaz e disse "Fique bem". Em seguida, levantou de seu lugar, se dirigiu ao garçom, pagou a cerveja e foi embora sem olhar para trás. Sem olhar para trás.

O bar pareceu apertado de repente. O garçom que passava por ali e as pessoas das outras mesas não entendiam aquele silêncio que, aos poucos, passou a escurecer, sufocar, matar...

Enquanto o rapaz coçava pensativo sua barba mal feita foi capaz de ouvir algo através daquela mortalha. Não eram as pessoas e nem era o garçom; era "aquele cara que insistia em cantar". Ele tinha um violão, sentava em um banco alto e cantava para o microfone: ele entendia, sabia exatamente o que dizia. Aquela música era a alma gêmea daquele silêncio; eles flertavam e faziam as emoções se confundirem.

O garoto, sem raciocinar claramente, terminou seu copo de cerveja, levantou, andou para perto do couvert e dançou entre as mesas. Não sabia dançar, mas isso não importava. Um garçom, notando o inconveniente, fez menção de interromper aquele momento, mas foi impedido por sua colega de trabalho, que dizia "Deixa, deixa!".

Ele sorria, seu silêncio ali estava completo. Pouco a pouco, casais começaram a se levantar e dançar contagiados. No final da música, todos aplaudiram e voltaram a seus lugares mais sorridentes enquanto o couvert agradecia, feliz com a reação de sua platéia.

O rapaz foi embora carregando seu silêncio consigo, sem ousar interrompê-lo com palavra ou lágrima. Em casa, deitou a cabeça no travesseiro e chorou. Quando dormiu, porém, estava sorrindo e seu pé mexia sozinho em baixo da coberta, como se continuasse a música de antes.