quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Amelia

Existem alguns momentos em nossas vidas nos quais parecemos parar no tempo e não naquele sentido bonito de filmes românticos. Isso aconteceu comigo poucas vezes. Uma delas, bastante recente, foi durante meu terceiro voo em dois dias. Era um de seis horas, depois de um de dez horas, e entre os dois foram mais cinco confortavelmente sentada nas cadeiras do aeroporto. Aquelas macias e quentinhas que você sempre quis ter em casa.

Pois bem, foi no ultimo voo que eu senti as horas quase rindo de mim. Elas passavam tão lentamente, que eu sequer tinha noção de quanto tempo havia passado e, o mais importante, de quanto tempo faltava. A paisagem já não era mais divertida, podíamos passar por desertos, montanhas com neve, praias, florestas ou unicórnios voadores. Nada, absolutamente nada, fazia dez minutos não parecerem horas. As pernas doíam e os poucos minutos de sono traziam dores no pescoço de brinde. Queria levantar, mas não estava na almejada cadeira do corredor e sim naquela da janela, que faz com que todo mundo tenha que levantar para você poder sair. A minha frente uma pequena televisão sugeria que eu adquirisse pacotes de filmes para a viagem. Me pareceu tentador, mas prometi a mim mesma não gastar dinheiro com isso. Não foi fácil.

Já haviam passado pelo menos quatro horas de voo quando vi que minha mãe havia começado a conversar com a pessoa ao lado dela. Ela devia estar tão entediada quanto eu. O alvo do dialogo era uma senhora com cabelos loiros quase brancos, olhos claros e com seus sessenta anos ou mais, dona da almejada cadeira do corredor. E foi dela que me vieram três surpresas durante aquele voo infinitamente longo e cansativo.

A conversa começou lenta, com palavras truncadas devido a diferença do idioma, mas logo se desenvolveu de forma natural. E então veio a primeira surpresa, quando listou os pontos que deveríamos visitar. Começou pelos turísticos, logicamente, e então passou para lugares específicos de North Beach, bairro da cidade.

-  Esse é um restaurante italiano, não muito famoso. E este é um bar muito antigo, vocês realmente deveriam ir lá. Tem blues aos domingos e é no mesmo dia que eu trabalho como bartender.

Ela disse essa informação muito naturalmente e eu pensei ter enroscado no meu inglês. Talvez porque ao ver Amelia eu tenha criado uma historia na minha cabeça de uma senhora que vivia pacificamente curtindo sua aposentaria em uma cidade americana, e ela ser uma exímia preparadora de drinques nao se encaixava nesse contexto.

A segunda veio logo em seguida, contando o porque ela trabalhava no bar aos domingos:

- Na verdade eu tenho um pequeno teatro. - Ao ver minha cara de surpresa ela acrescentou: bem pequeno mesmo. Não da dinheiro nenhum. Sobrevivo do trabalho do bar e das gorjetas. Sou atriz, mas nunca fiz dinheiro com isso.

Pois bem, Amelia, alem de preparar drinques habilmente, também tinha um teatro. Mais uma coisa que eu não tinha acrescentado a minha história particular.

Amelia acabou sendo uma pessoa muito interessante e me agraciou com mais uma surpresa, quando estava contando sobre seu namorado e a cachorrinha que havia adotado, o piloto anunciou que iríamos pousar em breve, precisávamos afivelar o cinto, voltar a poltrona no lugar e todo o resto da parafernália.  

Finalmente havíamos chegado. Obrigada Amelia.

Amelia, claro, ganhou um novo nome neste relato. Mas seu teatro e drinques existem de verdade e já fazem parte do meu roteiro.