terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Libertação (?)


Eis que resolvo dar um basta. Chega de cobranças de prazos inúteis, de horas-extras não pagas, de salário que a cada mês diminui. Hoje não levo desaforo pra casa. Nada de promessas não cumpridas! A gratificação que não veio, as férias nunca desfrutadas, a promoção por mérito, tão almejada, ilusória. Hoje cumpro a minha bem cumprida, e deixo esta escravidão a que chamam de emprego!

Nenhum falatório de patrão ou de seus chegados vai controlar mais minha vida. Comerei quando quiser, dormirei quanto meu corpo pedir, beberei o que me dá prazer. Farei o que me realiza como ser humano! Sem mais atender a ordens de ninguém, a demandas de mercado algum, em troca de capital sujo nenhum. Hoje, pela primeira vez na minha vida, sou senhor de mim!

(Por instantes apenas enche os pulmões dessa liberdade nunca antes provada; essa possibilidade de se autodeterminar, livre de quaisquer chefes. Seu peito arfa, apreciando como nunca seu movimento, carecendo de mais ar.)

E que ninguém me chame de vagabundo! Vagabundo, que só tinha tempo para dormir em casa, de resto tudo era para o trabalho? Que pegava o ônibus lotado antes do sol nascer, cumpria com todo o esmero todas as ordens que recebia, trabalhava até mais do que devia? Vagabundo é quem fala!

No atropelo que se impõe, a vida vai sendo vivida sem que possamos fazer muito pra mudá-la: estudamos até quando podemos, e tão logo tenhamos idade (ou antes disso!) nos cobram trabalho, excelência, eficiência, submissão, consumo, casamento, filhos, mais trabalho e mais consumo. Que trabalho? O que vier! Todos querem trabalho; se eu não quiser, outros mil o quererão, a troco de pão velho e água. Que consumo? Tudo o que precisamos, achamos que precisamos e que dizem que precisamos, e mais um pouco, para “ser feliz”.

Tudo ilusão, todos escravos!

Mas hoje não. Hoje, da minha rotina cuido eu! Na minha cabeça, na minha língua e no meu nariz mando eu! Adeus!


Amanhã cuido de arranjar uma ocupação; pois nesse mundo quase não se vive sem dinheiro.