quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

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No final de um beco sentado numa banqueta em frente a uma loja denominada "tatau" está um senhor de feições orientais fumando um cachimbo chinês em estado contemplativo. A cada tragada ele visivelmente sente o mesmo prazer de quando o pulmão enche-se de ar; o prazer da vida!

- O Senhor sabe onde está o dono desse lugar? – pergunta um tanto impaciente um homem que saiu de dentro da loja.

- Sou eu! – responde o senhor após uma longa inspiração, absorvendo cada miligrama produzida pelo fumo, com a pressa de quem tem todo o tempo do mundo.

- Não vai me atender? – o tom permanecia o mesmo.

- Pois não senhor. – enquanto fala o velho levanta-se vagarosamente e guia o cliente novamente para dentro da loja. – Em que posso ajudá-lo? – simultaneamente, através de um gesto com a mesma mão que segura o cachimbo ele direciona os olhos do homem para os desenhos nas paredes.

- Eu trouxe meu próprio desenho. – logo em seguida tira do bolso um pedaço de papel dobrado e entrega-o para o velho que pega e observa com o olhar de quem encontra algo familiar.

- Interessante... – o senhor fala enquanto separa o seu material de trabalho, entre uma tragada e outra, o que provoca um olhar de desconfiança por parte do homem – Pode sentar aqui. – o cliente hesita.

- Como chegou até mim? – traga a fumaça do cachimbo profundamente após questionar.

- Gostei do trabalho que fez em um amigo meu e ele me passou seu endereço.

- Então não há motivos para não confiar nas minhas habilidades. – com uma das mãos o velho oferece novamente a cadeira. Ainda meio desconfiado o homem senta e ajeita a sua camiseta.

Sem parar de fumar e sempre demonstrando prazer ao fazê-lo, o senhor utiliza um osso fino como agulha e uma espécie de martelinho para introduzir a tinta e desenhar a pele de seu cliente. Durante todo o processo o homem escuta as batidas do martelinho "ta-tau, ta-tau, ta-tau, ta-tau" que o lembra o tempo todo do nome da loja. Depois de três meses o serviço termina e um magnífico dragão negro esta desenhado nas costas do homem que efetua o pagamento, - Aqui está! – e vai embora.

- AAAAAAAHHH!!! – enquanto organiza seu material o senhor escuta um grito desesperado de um homem; e sem nenhum sinal de abalo, e só após terminar de fazê-lo ele sai da loja, mas não para ver o que aconteceu e sim para sentar-se novamente em sua banqueta e apreciar o fruto de seu cachimbo chinês.