quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Visões no lago

- Eu juro, parecia uma boca muito grande! - dizia o rapaz loiro com os olhos arregalados. Os colegas, com os ânimos já alterados pela cerveja, riam do pobre diabo a ponto de perder o fôlego, um deles batendo a mão na mesa do bar e derrubando batatas fritas do prato.

- Tá, me corrija... - começou o primeiro a conseguir falar. - você tava jogando pedras no lago. Aí você jogou uma que quicou cinco vezes e do nada ela foi abocanhada no meio da água por uma... “boca gigante”.

O garoto passava a mão nos cabelos amarelos visivelmente irritado. Não sabia se era a descrença dos amigos ou a forma sarcástica com que o outro disse “boca gigante” gesticulando aspas imaginárias com os dedos, sabia apenas que estava cansado dessa conversa.

Após alguns minutos de conversa descontraída sobre outros assuntos, porém, se envergonhou. Chegou a acreditar que havia de fato um monstro no lago, e que por algum motivo decidiu comer a pedra que ricocheteava pela superfície. Como um peixe muito grande que viu um inseto muito grande.

O problema, e essa parte tinha vergonha de expor em palavras, é que após a boca imergir na água escura do lago, um tentáculo muito longo e estreito como uma cobra subiu e desceu lançando água para todos os lados. O rapaz poderia fingir que não viu, mas sua roupa se cobriu de respingos frios.

Quem sabe não fora uma peça pregada por sua cabeça? Afinal, as pessoas que estudam muito ficam confusas de tempos em tempos. Quem tem tempo para esses contos infantis hoje em dia?

Foi para casa tentando esquecer o assunto. Dormiu como uma pedra, um sono tornado pesado pelo álcool, tão profundo que não acordou com os gritos no seu quintal durante a madrugada. Interrogado pela polícia horas depois, afirmou não saber o que ocorrera. Não haviam rastros, apenas olhares acusadores dos vizinhos e luzes giroflex da viatura.

A única pessoa que afirmou ter visto a origem dos gritos foi uma criança de oito anos de poucos amigos reais e alguns imaginários. Morava no segundo andar do prédio da frente e, insone, ficou observando enquanto o ladrão pulava o muro da casa. Depois disso, disse ter ouvido alguns gritos, uma grande boca aparecendo de relance por cima do muro e um tentáculo muito longo e estreito. O policial, chegado a crianças, apenas bagunçou o cabelo do garoto e lhe deu um pirulito que por acaso carregava no bolso. Apenas uma daquelas histórias ridículas que as crianças inventam.