quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A Casa do Delegado

O caso estava se aproximando de sua solução e o criminoso muito em breve seria preso em uma investida triunfal dos agentes do departamento de investigação. Os agentes olham para o lado certo na hora certa, captando reflexos em fotos à primeira vista e demonstrando a tecnologia futurista disponível apenas a eles.

A família não perdia um episódio sequer do seriado. Todos reunidos em frente à TV aguardavam a conclusão do caso. O velho seu José, porém, por seu problema de visão, não prestava muita atenção ao aparelho; ao invés disso, soltava ocasionalmente algum comentário aleatório, em nada relacionado com a ansiedade que pesava sobre o ambiente.

Foi nesse momento que, com as mãos juntas sobre sua barriga, o velho abriu um sorriso orgulhoso e se pôs a declamar: "Sabe qual é o melhor lugar para se esconder da polícia?" e, após uma pausa dramática, concluiu: "A casa do delegado. Fiquei meses escondido lá e a polícia nunca me achou. Foi o próprio delegado que me recebeu."

Era uma história incrível, porém real. Tão orgulhoso era o homem de seu ousado feito que levantava um dedo enfático e entonava a voz com autoridade ao dizer "nunca". Alguém fez menção de dizer "shiu", mas a mãe rapidamente interveio dizendo baixinho "deixa, tadinho... lê a legenda que dá pra acompanhar".

A família trocava facilmente a chata história real do homem que fugiu da polícia e se escondeu na casa do delegado pela incrível história inverossímil da investigação do assassinato fictício. Afinal de contas, por que o seu José não arranja algo mais interessante para contar?