terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Alheia


Mal acordou e já precisou sair correndo. Estava atrasada. Hoje não poderia sequer tomar café.

Foi desmontada, aos ofegos, que chegou ao ônibus. O cabelo despenteado amarrou ali mesmo, no caminho para seu assento, equilibrando sua bolsa ainda aberta, sua pasta e seu casaco descombinado, entre um solavanco e outro.

Assim que sentou tirou o material de estudo, que tentava assimilar, porque precisava estudar. Porque precisava.

Nem bem o ônibus parara ela saiu desabalada, quase correndo, rua afora. Cruzou a praça, todavia desviando o mais longe possível de um café, evitando que qualquer conhecido seu (e sempre costumava haver um ali) a atrasasse ainda mais.

Chegou no horário no escritório. Ligou seu computador, num gesto automático, e logo iniciou o trabalho. Foi assim até escurecer, só parando para almoçar, num horário alternativo, só.

Voltou como foi: apressadamente. Correndo, desviando, estudando.

Em casa, jantou e conversou com a família brevemente. Alheia, quase inexpressiva.

De volta ao quarto, maquinalmente abriu seu endereço eletrônico e sua rede social. Virtualmente trocou algumas palavras, comentou algumas fotos e, sob o pouco tempo e correria, saiu.

Enfim deitou-se, e dormiu.

Dormisse mais, sonharia mais. Pensaria, ver-se-ia, desejaria? Desperta, apenas ficava a esquivar-se, esquivar-se... esquivar-se de si mesma.