quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Batalha interior

Dois guerreiros, distantes 5 metros um do outro, ajoelhados e sentados frente a frente sobre os seus calcanhares se olham fixamente. Mesmo sem poder enxergar claramente os olhos de seu adversário, devido à máscara em suas faces, ambos se estudam. Ato também dificultado pela iluminação feita por meio de velas postas no único lustre ao centro do ambiente, que faz não ser possível enxergar um palmo além da viga atrás de cada um dos guerreiros. Em cada viga, fincado diretamente na madeira, um incenso queima e espalha um aroma agradável. Por um longo tempo somente a luz – devido a eventuais correntes de ar – e os incensos sofrem alterações. Então ambos fecham seus olhos e após um curto espaço de tempo o som do incenso, antes imperceptível, agora pode ser ouvido como um tronco de madeira em brasa.

Repentina e simultaneamente, em um movimento espelhado, os guerreiros abrem os olhos, desembainham sua espadas enquanto avançam e desferem um golpe. O choque de suas armas dá-se precisamente fio com fio de cada lâmina. Imediatamente ambos recuam assumindo uma posição defensiva e uma nova analise tem início. A intensidade dos acontecimentos destorce o tempo e sua percepção é anulada. Até que uma corrente de ar mais forte atravessa o ambiente e cria uma diferença na iluminação ao apagar algumas as velas. No exato instante seguinte, o guerreiro menos iluminado, ganha uma fração de segundo suficiente para que seus movimentos deixem de se espelhar. Neste tempo aparentemente ínfimo ele avança sobre seu adversário que tenta defender-se sem sucesso e tem seu tronco transpassado pela espada do atacante.

No momento seguinte, ambos os guerreiros estão novamente sentados frente a frente sobre seus calcanhares e as velas estão todas acesas. O guerreiro vitorioso retira sua máscara e espera que seu oponente faça o mesmo, porém, ele continua imóvel. Confiante, o guerreiro desmascarado levanta-se e caminha até seu adversário e retira a máscara dele e depara-se consigo mesmo. Por um momento a surpresa o deixa sem reação. Momento suficiente para que o guerreiro, anteriormente derrotado, sacar uma adaga e enterrá-la também no troco de seu inimigo. Neste instante o incenso chega ao fim e uma forte rajada de ar apaga todas as velas e nada mais pode ser visto ou ouvido.

Como quem acorda de um sonho real o guerreiro abre seus olhos, e ofegante, hesita. Seu olhar vaga pelo seu interior com o objetivo de reconhecer quem está alí. Ao seu redor apenas tocos de velas formando um circulo em uma pequena clareira de uma floresta densa. Após constatar quem era e onde estava, o guerreiro levanta-se, e com o olhar de quem gostou do que encontrou, caminha floresta a dentro.