quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Fumo e Gelo

Conta a lenda que, entre o nada e o lugar nenhum, existia uma estrada. Pequena, discreta e bastante simples, mas com um propósito único: Aquele que estivesse disposto a procurá-la e encontrá-la, poderia conseguir algo que quisesse muito. Quase como uma lâmpada mágica. 

Após ouvir essa história inúmeras vezes, um jovem resolveu sair de sua casa e ir atras dela. Durante sua busca se passaram dias, meses e anos. Sua pele ganhou rugas, suas juntas dores e  seus cabelos  perderam a cor. E quando já havia pensado que estava correndo atrás de um sonho impossível, finalmente a achou. Era realmente pequena e discreta, quem não a estivesse procurando dificilmente a acharia. Seu único indicativo era uma placa de madeira corroída pelo tempo e uma palavra quase apagada: Desejos. Era ali, finalmente encontrara. Seu coração apertou de uma forma quase dolorida. 

Os pés calejados não hesitaram em seguir em frente. O chão batido não era nem quente nem frio e a única coisa que sentia eram as pequenas pedras insistindo em furar o couro duro de seus pés. Depois de horas caminhando chegou a conclusão de que poderia estar na estrada errada. Esta era feia, o solo extremamente pobre e  nada nunca cresceria ali. Seria possível seu desejo ser realizado em um lugar tão hostil?

Quando os últimos fiapos de esperança davam lugar a frustração sufocante, uma imagem lhe chamou atenção. Dois velhinhos estavam sentados, um fumando um longo cachimbo branco e outro com um copo cheio de um liquido amarelo. Aquilo era real? 
Se aproximou mais e parou em frente a eles. Distraídos, conversavam sobre coisas que ele não entendia e só depois de um longo tempo notaram a presença dele ali. 

-O que faz aqui tão longe jovem? - O senhor com o copo na mão deu um longo gole e continuou olhando para ele. 

Após alguns segundos de reflexão, decidiu por responder. Se fosse coisa da sua cabeça, ninguém o veria falando sozinho naquele fim de mundo. 

-Vim realizar meu desejo. 

-E qual é o seu desejo? - Dessa vez foi o senhor ao lado quem perguntou.

Essa era a primeira vez que lhe perguntavam isso. E, com uma certa vergonha, ele concluiu que não sabia. Dinheiro? Mas dinheiro para que? Talvez saúde fosse mais importante. Mas queria ser bem sucedido. E casar? Ter filhos? Já estava velho demais para isso. Existiria um que resumisse tudo isso?

Ele pensou por um tempo e então, humildemente, confessou que não estava certo sobre o seu desejo. 

-Se você não sabe o que deseja como vai saber o que quer encontrar aqui? - Perguntou o senhor da esquerda, tragando seu cachimbo branco.

-E se você não sabe o que quer, como vai saber que finalmente encontrou o que deseja com todo seu coração?

Pensou mais um pouco e pediu a única coisa que tinha certeza que não teria como conseguir mais: - Tempo. 

-Tempo para que meu jovem?

-Para realizar tudo o que eu quero. 

Se despediu e saiu pela mesma estrada, esperando a placa para voltar para casa. Mas que casa? Depois de horas de caminhada percebeu que não sabia para onde estava indo. Olhou para o chão batido, preocupado, procurando pegadas ou algum sinal de que estava indo para o caminho certo e com espanto percebeu algo a mais entre as pedrinhas inoportunas: pequenas folhas, as mais verdes que já tinha visto, crescendo no chão sem vida. Não entendeu porque, mas seguiu calado e com um sorriso no rosto. 

De longe os velhinhos observavam, ainda sentados e conversando. 

-Hoje em dia as pessoas se focam nos seus desejos e esquecem de aproveitar o caminho até eles. - O senhor do cachimbo falou. 

-E o que você deseja? 

-Mais fumo para o meu cachimbo. E você?

-Mais uma pedra de gelo para meu whiskey.