terça-feira, 5 de março de 2013

Café com Bolinho

A Menina voltava distraidamente da escola. Pensava nas lições de casa que teria que fazer e quanto tempo lhe sobraria para se perder dentro do último livro que pegara emprestado na biblioteca. Era menos tempo do que gostaria. Porém, nem que tivesse o dia inteiro livre, ainda sentiria que era pouco tempo.

No caminho para casa, havia uma cafeteria que havia acabado de abrir. Desde a sua inauguração, havia uma Moça que se sentava numa das mesas da varanda sempre no mesmo horário. O horário em que a Menina voltava da escola.

Com o tempo, pôde perceber um certo padrão no comportamento da Moça. Ela nunca se sentava no mesmo lugar em dois dias seguidos. Sempre deixava sua cadeira de lado, para poder apoiar melhor o braço que segurava o livro do dia. Na mesa havia uma xícara de café (com leite), que ela nunca deixava parado tempo o suficiente para esfriar, e em seguida já pedia outro. O bolinho (que algumas pessoas chamavam de cup cake, outras de petit gâteau, mas para a Menina não deixava de ser um simples bolinho), por outro lado, passava a tarde inteira quase intocado.

A Menina se encantava com o jeito displicente com que a Moça se sentava e se vestia, como se estivesse completamente confortável com seu corpo e suas roupas, ou até com o lugar em que estava. Para a Menina aquela atitude era uma novidade, pois sua mãe e suas primas viviam reclamando dos seus imaginários quilos a mais, ou de alguma outra coisa que não gostavam, como a cor natural do cabelo ou seus joelhos. Consequentemente, nunca estavam satisfeitas ou confortáveis com sua aparência. Aquela Moça parecia não se preocupar com nada daquilo, pois não usava maquiagem nem para esconder as sardas que cobriam seu nariz e maçãs do rosto.

As semanas passaram rapidamente, e a Menina sempre via a Moça sentada no café com um sorriso no rosto e um livro na mão. Às vezes o sorriso se transformava em susto ou risada contida, mas estava lá, junto com olhos atentos e voltados para dentro. Para a Menina, a Moça era como um espelho do seu futuro. Mais que uma inspiração: um objetivo.

Porém, um certo dia, o café estava vazio. Havia outros clientes, mas para a Menina era como se o lugar tivesse perdido a vida sem a Moça lá. "Deve estar doente", ela pensou. Afinal, já era inverno. Entretanto, no dia seguinte a cena se repetiu. Havia um lugar vazio e sem brilho na cafeteria. Parecia até que a conversa e risada dos outros clientes tornara-se menos ruidosa.

Uma semana inteira se passou e a Moça não apareceu um dia sequer. Duas semanas. A Menina começou a sentir um vazio, como se tivesse perdido uma amiga, sem aviso e sem motivo. Decidiu perguntar aos vendedores se sabiam o que havia acontecido com a moça.

- Ela se mudou para outra cidade.

Então era assim. Sua estrela guia havia seguido seu caminho, e a Menina foi deixada sem objetivo, sem inspiração. A Moça não lhe devia nada, talvez nem soubesse que ela existia, mas ainda se sentia como se tivesse sido abandonada por uma amiga.

Sem saber bem o porquê, foi até uma das mesas da varanda e se sentou. Tirou da mochila escolar o livro que ainda hoje havia emprestado na biblioteca e pôs-se a ler. Antes de começar a leitura, porém, viu um desenho no canto da mesa que lhe chamou a atenção. Havia alguns rabiscos esculpidos a ponta de faca na madeira, mas aquele parecia recente e representava uma garotinha carregando uma grande mochila. Prendeu a respiração, com mede de que o menor barulho apagasse aquela imagem da sua memória. De alguma forma, tinha certeza de que a garota do desenho era ela.

A garçonete se aproximou e perguntou se ela queria o cardápio. A Menina recusou e simplesmente pediu:

- Café com bolinho.