quinta-feira, 28 de março de 2013

Cinco minutos

O garoto olhava para a mão contra o fundo cinzento da nave. Estando à deriva por tanto tempo jamais se questionara quanto tempo ainda viveria essa monotonia. Há sessenta e sete horas a nave estava sem condições de alterar sua rota no interminável vácuo, à deriva. Lembrava de seus tempos na Terra e do quanto sua vida fora chata e desagradável. Natural que terminasse em monotonia.

Sua missão já havia falhado há muito tempo e já não conseguia mais se comunicar com o planeta natal. Sem condições de retornar ou de fazer qualquer coisa a respeito da própria vida, cogitava frequentemente o suicídio, mas repensava e deixava o tempo passar. Sua rotina se tornara um eterno verificar de instrumentos e painéis e se alimentar de pastas nutritivas.

Agora, porém, o fim estava finalmente próximo: um asteroide, igualmente à deriva, estava em rota de colisão. Teria cinco minutos (ou talvez seis?) de vida para aproveitar e então tudo estaria terminado, sem velório e sem lamentos. Será que em Terra alguém lhe fez ao menos alguma homenagem depois que a comunicação foi perdida?

O contorno de sua mão era estranhamente evidente contra o fundo cinzento e metálico. Era belo de uma forma peculiar, não sabia explicar a impressão que aquilo dava. Sentia tranquilidade pela proximidade da morte? Lembrou de uma tarde deitado na grama em sua adolescência olhando a mão contra a luz do céu, sua namorada deitada ao seu lado tentando entender o que tinha de interessante naquela mão.

Era estranho pensar que aquela essa era a mesma mão que contrastava com o azul. A mesma que tocou sua namorada, que assinou sua inscrição na agência espacial, que cumprimentou tantos amigos, que trouxe tantos copos à sua boca em momentos felizes... momentos felizes. Ele lembrava de muitos. Por que estava triste?

A vida valeu a pena. O final era belo no espaço que tanto sonhou alcançar, em sua própria missão sozinho. Aquela mão estava no final de seus dias e estaria sepultada no vácuo junto com todo o seu corpo. Quantos na história tiveram a oportunidade de ter uma tumba no espaço?

Por cinco minutos pensou e por cinco minutos sorriu. Por cinco minutos voltara a viver, e por cinco minutos viveu mais que em muitos anos. Quando o fim chegou, estava em paz.