quinta-feira, 21 de março de 2013

Escambo

Esquecida sob a poeira cinza, o silêncio dos habitantes e a localização desafortunada, a cidade do Desapego era um dos lugares que passou a ser evitado por muitas pessoas devido aos rumores que ela envolvia. As ruas não tinham nomes nem placas, quem chegava até lá sabia exatamente onde queria ir. 

O lugar mais requisitado dos turistas era bastante modesto por fora e passava facilmente despercebido por quem não sabia seu propósito. Um sobrado simples com portas e janelas pregados. Porém, era cruzando a porta principal que você sabia que encontrou o lugar que queria. Aquele imenso caldeirão de despejos, sentimentos confusos e ganância. Todos que estavam ali tentavam vender um bem que não possuía valor estimado. Mas naquele lugar havia pessoas que pagavam por ele, e as vezes pagavam muito bem.

Separadas por pequenas cabines mal iluminadas as mesas possuíam um vendedor, humano, e um comprador. Um comprador podia ser qualquer tipo de criatura, dependia do que eles estavam interessados em comprar. Você gostaria de trocar suas experiências por algum dinheiro? Aqui é o lugar certo. Prefere apostar alguns anos de sua vida nas cartas? Você pode sair milionário. Cabeça cheia e cansado de pensar demais? Se livre de suas memórias e ainda ganhe para isso. 

Vender, vender e vender. Tudo aqui gira em torno disso. 

- Então você veio de novo. - O homem do outro lado da mesa lambia os lábios várias vezes na tentativa de umedecê-los. Vestia um capuz preto que lhe cobria tudo, menos o nariz, grande e fino demais para ser oculto. - Vender ou comprar? 

Ele não gostava de falar com ceifeiros.

- Vim pegar o que eu penhorei. 


O homem então levantou o cabeça e um de seus olhos ficaram visíveis. Uma pupila vermelha pulsante o encarava, tremendo de tempos em tempos. - Ora ora. - Lambeu o lábio mais uma vez e mordeu. - Isso é raro. 


Ali ninguém comprava nada. Comprar uma mísera lembrança podia custar as duas pernas e os dois braços, literalmente. Tudo era caro demais. Comprar vida era algo além das expectativas. Nunca ouvira falar de ninguém que comprara meio ano sequer. 


- Você sabe que vai lhe custar muito caro não é?

O rapaz apenas concordou com a cabeça, seus olhos estavam decididos. 

- Pois bem. - O ceifeiro levantou da cadeira e foi até o fundo da loja. Alguns minutos se passaram até que ele retornasse com um pequeno pacote roxo com o número 403. 

Ele agradeceu e se levantou. Porém antes dele se afastar muito o outro homem perguntou:

- Por que você trocou sua casa inteira por dez segundos de lembranças?

- Porque desde que deixei elas com você, me tornei a pessoa mais infeliz do mundo. Essas lembranças valem muito mais do que qualquer coisa que eu possuo. 

O ceifeiro puxou o capuz para traz e sorriu. - Então agora você sabe porque nós fazemos um excelente negócio aqui.