terça-feira, 19 de março de 2013

O Fogo e a Água

A fumaça subia em espirais escuras, encobrindo as nuvens e transformando o dia em noite. De longe, o céu nublado refletia o alaranjado que se estendia pela cidade. Casebres e casarões, prefeitura e prostíbulos, todos queimavam iguais, desabando diante do poder das chamas. Os que continuavam na cidade enchiam os baldes no poço mais próximo e tentavam salvar sua casa ou a de seus vizinhos. O fogo, porém, se alastrava rápido, devorando tudo em seu caminho.

Sobre a torre da igrejinha, dançava uma moça que ninguém podia ver. Seu vestido era vermelho com anáguas e blusa amarelas; o tecido voava com cada movimento, ondulando como as chamas que lambiam os telhados das casas. A cada prédio que caia, a mulher batia suas castanholas.

Logo abaixo, no poço da igreja, um jovem rapazinho descia o balde pela enésima vez, tentando salvar a casa em que nascera e crescera. Quando ele se afastou com o balde na mão, uma figura de cabelos azulados e olhos azuis muito profundos se aproximou do poço e olhou lá dentro.

- Secou – ela disse e olhou para o alto, onde a moça vermelha dançava.

O sino da igreja começou a tocar loucamente avisando as pessoas para evacuarem a vila. A moça de vermelho parou de dançar, observando as pessoas correndo pelas ruas com o que conseguiram salvar dos seus pertences. No instante seguinte, a moça de cabelos azuis estava ao seu lado com a expressão mais triste do mundo.

- Como consegue dançar numa hora tão triste quanto essa?

- Se eu não dançar, minhas filhas também não dançam e morrem rápido.

Em meio ao fogo, as duas moças podiam ver minúsculas formas femininas com vestidos parecidos com a Cigana Vermelha, mas com peles luminosas como um pedaço de carvão incandescente. Elas dançavam e cresciam, se deliciando com cada pedaço de madeira que carbonizavam.

- Apesar de toda a destruição que causa, você é muito frágil. Depois que o ímpeto destruidor passa, o fogo se extingue e só aparece novamente quando chamado ou quando o acaso permite.

- O acaso comanda a todos nós. Até você, Shuei.

- Sim, mas minha existência não é intermitente. Mesmo quando o acaso me manda para as regiões geladas, a água simplesmente de transforma em gelo. E quando sou tão pequenina que até a menor de suas filhas pode me secar, minha água apenas se espalha pelo ar em forma de vapor para se juntar com mais água e voltar ao solo, fortalecida.

Trovões cortaram a conversa das duas mulheres. O som abalou o céu, e em poucos segundos as nuvens que pairavam sobre a cidadezinha soltaram todo o seu peso acumulado de uma só vez. A pesada chuva logo foi diminuindo as chamas e, aos poucos, as pessoas voltavam para o que sobrara de suas casas buscando abrigo da umidade.

A Cigana Vermelha se entristeceu ao ver o fim da dança de suas filhas, mas reconheceu que era hora de partir, junto com o medo das pessoas. Agora era a hora das esperanças, das preces e do luto, enquanto ela era feita para a destruição, o conforto e as celebrações.

- Você sempre foi a mais forte de nós, Shuei. Mas também a mais triste.