quinta-feira, 7 de março de 2013

O velho do chapéu

O grupo levantava as canecas e gritava empolgado. Entre falas e risadas, relembravam muitos acontecimentos do período de faculdade. É bom estar entre amigos.

Não demorou para o senhor desengonçado e, como sempre, bêbado aparecer por ali carregando seu chapéu na mão. Ele passava de mesa em mesa pedindo seus trocados, a mesma figura de sempre. Todos gostavam dele e por vezes o seguravam na mesa por uns tempos antes de deixá-lo continuar a peregrinação por esmolas.

Todos juntaram suas moedas e o entregaram empolgados, e não demorou para o primeiro levantar a questão de ouro: "E os aliens?"

Era um senhor desarrumado, bêbado e há tempos retornado de uma suposta abdução alienígena. Ele sempre falava empolgado sobre as tecnologias que viu e sobre as amizades de outros planetas. Não era o tipo chato de história de experimentos e traumas, apenas uma viagem tranquila pela galáxia. Um chopp entre amigos interplanetários.

"Eles chegam hoje!" disse o velho com seu bafo etílico e um sorriso no rosto. "Hoje eu vou embora pra morar com eles!"

Todos riam e tomavam de seus canecos (um deles inclusive entregou o caneco para que o senhor se servisse). "Morar com eles?" perguntou um outro. "Orra, essa a gente não sabia. Vai voltar pra visitar a gente?"

"Há!" exclamou o bêbado expelindo uma rajada de saliva. "Visitar um bando de bêbados feito vocês?". Riu junto com os ocupantes da mesa. "Eu vou ter pouco tempo pra muito planeta, rapaz. Não quero perder mais tempo aqui em baixo. Muita coisa pra ver do meu quarto da nave".

Algumas pessoas da mesa trocavam comentários animados. Esse homem era mesmo uma figura. Durou até uma moça perguntar o que precisava ser perguntado:

"Pera. Se você vai morar com os alienígenas, por que você precisa de dinheiro?". Vários riram, era de fato uma pergunta divertida, uma piada por si só. Mas houve resposta para aqueles que não a esperavam.

"Eu não preciso. Eu vou terminar a volta no bar, usar o dinheiro pra comprar uma saideira e vou embora. Eu só quis dar meu adeus pros velhos amigos e dar a eles a oportunidade de achar que estão ajudando um velho coitado com ilusões de grandeza".

Houve risada, mas dessa vez menos convicta; aqueles que entenderam a mensagem estavam incertos. Desde quando ele falava assim?

O homem fez como disse: foi às outras mesas, foi ao balcão, tomou um caneco cheio, andou em direção à saída e, uma vez lá fora, olhou para o alto com um sorriso radiante no rosto e pôs seu chapéu. Em seguida, uma forte luz inundou toda a rua cegando a todos. Quando as pessoas assustadas voltaram a enxergar, o homem não estava mais lá.