quinta-feira, 14 de março de 2013

Tempestade II

Para uma garotinha deitada sobre a grama nada além do céu parece ter importância. Em posição de estrela, como se abraçasse com mãos e pés tudo o que vê, ela fica horas a assistir o movimento das nuvens. Uma paixão evidente para qualquer um que despendesse um instante do seu tempo para observar seus olhos. E se alguém sensível o suficiente para mergulhar com intensidade em sua íris e conseguisse atravessar a sua pupila, veria que esse fascínio vai além de um simples deslocamento provocado pelo vento. Um Mundo inteiro forma-se na retina da menina, que constantemente chega a adormecer e sonhar com o que imagina enquanto estava acordada. Contudo, o seu encanto também contém o seu medo, o seu desespero. Simbolizado pelas tempestades, é a Personificação do mal que existe no Universo vislumbrado pela garotinha, o pior de seus pesadelos...

Ainda de olhos fechados, e deitada sobre a grama, ela percebe que seu corpo está frio e que o vento está forte. Ao abrir os olhos nota que está cercada. O céu está cinza escuro e ela está sozinha. Um trovão ecoa assustando-a, e a vibração do som provoca a queda das gotas condensadas nas nuvens. Cada pingo de chuva, para a menininha, é como se sua pele queimasse com a sensação de frio que ela possui. Assustada, a pobrezinha olha ao seu redor em busca de um abrigo e em seguida corre para debaixo da copa da arvore mais próxima. Abraçada às próprias pernas, por algum tempo ela sentiu-se protegida, porém a água não demora a vencer a barreira de folhas e as primeiras gotas caem ainda esparsas. A cada uma que atinge o solo faz o medo dela aumentar até evoluir para o desespero. A garotinha treme cada vez mais e solta gritos pavorosos toda vez que um pingo cai sobre ela.

Repentinamente as gotas param de cair sobre a criança, que agora sente apenas o vento frio que ainda soprava com força. Quando ela abre os olhos vê que a tempestade ainda não tinha passado. Quando a menina percebeu, uma mulher com um guardachuva senta ao lado dela. Nenhuma palavra foi dita. A garotinha pulou no colo da moça que a cobriu como pode com seu casaco e a envolveu em seus braços. Pouco a pouco a tremedeira foi diminuindo e ela adormeceu.