terça-feira, 2 de abril de 2013

Agora!

Às vezes bate uma vontade de gritar a plenos pulmões, de se descabelar. É uma vontade incontrolável, irrefreável, inflamável.

Vejo tanta gente sem voz que chega a ser um insulto não gritar por elas. Vejo tantos absurdos que chega a ser obsceno não avisar meus conterrâneos das armadilhas que os aguardam. É tanto descaso que se torna impossível ser mais um dos que viram o rosto para o outro lado.

Essa vontade de lutar não surgiu do nada. Eu também me contentei com suspiros resignados enquanto outros falavam por mim o que eu nem queria. Eu também já caí na lábia de oradores astutos, tantas vezes que até hoje não fiquei sabendo de algumas delas. Eu também me encontro desamparada, dia após dia, em minhas necessidades (que são as mesmas que as suas).

Hoje percebo que não sou uma vítima – antes, fui vitimizada. Sempre tive uma voz, apenas não a usava. Sempre vi as falhas nas grandes promessas, mas preferia esperar algo que nunca se cumpriria a fazer a minha parte. Sempre tive poder, mas sempre me foi dito o contrário. E eu acreditei... Como acreditei!

Mas enfim arrebentei as correntes e emergi, respirando o ar da superfície em largas golfadas. Ainda assim o oceano é vasto e as vozes daqueles que emergiram são fracas em sua imensidão. Os barcos que carregam os "espertos" possuem megafones e sirenes que abafam nossos brados. Nessas horas, o desespero toma conta e a vontade é de voltar para o fundo lodoso do oceano, onde nada é visto, nada é dito, e apenas o som dos mais altos megafones chega àquelas águas escuras.

É então que vejo quantas pessoas ainda estão presas às suas correntes de lodo e algas, vivendo sobrevidas marasmentas sem sequer saber que basta um impulso, uma braçada um pequeno esforço de todos para chegarem à luz da superfície. Lá é seu lugar de direito, não importa no que os barcos os façam acreditar.

Admito também que tive sorte: minhas correntes eram mais fracas que as de muitos desde que nasci, e outros ajudaram a arrebentá-las, enfraquecendo-as durante toda a minha vida. Percebo que as correntes de muitas pessoas são mais fortes, atraentes e numerosas e apenas alguns contam com ajuda para se libertar.

Quando vejo isso, minha vontade de lutar por elas e desfazer suas amarras aumentam e sinto que tenho uma força sobre-humana mais poderosa que o destino. Então vejo as embarcações gritando o contrário, tantas delas contra umas poucas vozes flutuantes no oceano. A força se vai e a vontade fecha os olhos para lamber as feridas de uma batalha que nem ao menos começou. Vergonha? Para dizer o mínimo, sim. A covardia foi minha principal companheira nos meus primeiros anos de superfície.

Mas a vontade de lutar nunca morreu. Ela sempre esteve lá, por vezes tímida e abatida, por outras indignada e insaciável. Os anos a fortaleceram e o conhecimento afastou a vergonha até que seu brado se tornasse forte e irredutível.

Hoje ouço mais vozes no oceano, diferente daquelas dos barcos. Vozes às vezes tão fracas quanto meu primeiro grito, mas que, como a minha, não conseguem manter os olhos fechados por muito tempo.

É hora de lutar! É hora de nos ajudarmos uns aos outros. Basta de egoísmo e mesquinharia! Basta de sacrifícios humanos em massa! Basta de olhos fechados! Agora é a hora das vozes oprimidas e abafadas se levantarem do oceano e exigirem seus direitos. Agora, antes que seja tarde demais e apenas o sangue pague pelas mudanças que podemos fazer hoje com nossas vozes. É chegada a hora de virar os barcos!