terça-feira, 16 de abril de 2013

Frutos

- O Viajante, em uma de suas primeiras andanças neste mundo, tinha os bolsos cheios de pinhões. Um dia ele chegou a uma terra que não possuía árvores, apenas pequenos arbustos e grama alta. Apesar disso era uma terra bonita, elevada e plana, com vista para a serra verde-azulada no leste distante, e o clima era fresco e agradável.

"Decidido a tornar aquela terra ainda mais bela e habitável, ele plantou duas das sementes que tinha no bolso e partiu. Com o tempo, as duas sementes germinaram e cresceram, se tornando dois belos exemplares de araucárias, um macho e outro fêmea. As árvores cresceram fortes e saudáveis, dando origem a muitas outras araucárias. As pessoas viram aquelas árvores de longe, pois eram muito altas, e foram até elas. Vendo como a terra era bela e fértil, instalaram-se ali, vivendo muitos anos felizes e deixando muitos descendentes, exatamente como aquelas duas sementinhas."

O Menino ouviu a história do pai com um ar atento e pensativo.

Era inverno. Da lareira vinha um calor forte por conta dos nós de pinho que queimavam ali. Seu pai colocara alguns pinhões numa panela sobre o fogo e contara sua história enquanto esperavam que ficassem prontos. Todos os móveis da casa eram feitos com troncos e galhos de araucárias do próprio sítio, que cresciam ali em maior quantidade que qualquer outra árvore.

De repente o Menino se lembrou dos dois pinheiros centenários que ladeavam o portão de entrada do sítio, de onde se tinha uma vista limpa e ampla da serra do mar. Eles eram mais altos e mais grossos que todos os outros, sendo assim deviam ser muito antigos.

- Pai, esses dois pinheiros que o Viajante plantou são os pinheiros do nosso portão?

Com uma risada gostosa, o pai respondeu:

- Não, não, meu filho! Eles são antigos, mas a história do Viajante é muito mais. O mais provável é que aquelas duas sementinhas já tenha virado lenha há muito tempo para algum tataravô seu. Assim como um dia seus tataranetos vão fazer com os dois pinheiros do portão.