quinta-feira, 25 de abril de 2013

O baile

Os copos batiam sobre o centro da mesa enquanto a família animada bradava "Saúde!".

Seu José, em sua poltrona de balanço, resmungou algo ininteligível e pegou novamente no sono. Todos riram da cena, afinal, dito pelo não dito, era cômico. Sempre mal humorado o seu José.

"Deve ser chato", disse a senhora à mesa em tom reflexivo. O silêncio que sucedeu sugeria que era a deixa para ela concluir o raciocínio. "Vocês não acham? Depois do monte de coisa que ele fez em vida deve ser chato ficar numa mesma casa, dormindo na poltrona da sala enquanto o resto da família almoça".

Um clima de desconforto desceu sobre a família à fala da inocente senhora, cortado por sua irmã que se apressou em elevar o clima. "Vocês não souberam da história do baile? Não queriam deixar ele entrar no baile, era uma festa privada".

Gradativamente, as atenções se voltavam para ela e o interesse começava a crescer. Aproveitando o ensejo, continuou: "Ele ficou revoltado e foi embora. Dali a pouco me volta o homem montado num cavalo e toca baile adentro. Ninguém teve coragem de barrar".

Todos riam animados. Veja só se isso é coisa que se faça...

"Não só entrou no baile a cavalo", continuou a mulher empolgada, "como dançou com a esposa do dono da festa!"

Que bela história! Só era possível acreditar por ser o seu José. Todos olharam para o velhinho em sua poltrona, dormindo de boca aberta, silenciosamente ovacionado por olhares de admiração. "Esse era o seu José" dizia o caçula da família em voz baixa.

O velho se remexeu e resmungou mais alguma coisa sem acordar. Os que estavam mais próximos poderiam jurar que era um palavrão.