terça-feira, 30 de abril de 2013

O Vilarejo do Ano Novo

Com o seu caminhar lento e distraído, a Senhora percorria a longa e humilde estrada de terra batida até a vila. O luar guiava seus pés e seus pensamentos. Antes que se desse conta, já atravessava o portal de uma das entradas, sendo saudada pelas luzes que brilhavam nas janelas das casas.

Sem pressa, vagou entra as casas pequenas e amigáveis que se debruçavam sobre a rua. Algumas delas conhecia apenas de vista, mas dentro de algumas já havia comido e bebido com o anfitrião, além de compartilhar boas risadas e alguns versos não muito alegres. Aquelas mais afastadas da rua, com o brilho nas janelas ainda fraco, lhe provocavam uma grande curiosidade, pois ainda não conhecia quem nelas morava. Porém, não ousava se convidar para o jantar, pois sabia que ainda não era chegada a hora de conhecê-los. Aqueles eram encontros para o futuro.

Em duas das casas pelas quais passou não havia luz alguma e as portas e janelas estavam trancadas. Conhecia seus antigos moradores e, ao passar pelas construções, perguntava-se por onde andavam e o que faziam numa noite tão agradável quanto aquela. Era uma pena que não morassem mais ali.

Para todo o restante do mundo aquela noite era apenas uma noite qualquer. Talvez aniversário de algumas pessoas ou de alguma união, mas fora isso não passava de uma noite ordinária. Exceto ali. Naquele vilarejo era ano novo, apesar de não haver ninguém nas ruas para comemorar ou soltar fogos de artifício no céu noturno.

Um música baixa e abafada chegou aos ouvidos da Senhora, que a seguiu. Chegando à taverna de onde ela vinha, entrou sem hesitar. Lá dentro, a lareira profunda e os diversos lampiões a óleo iluminavam o ambiente com uma luz amarelada, carregando o ar com uma fraca fumaça. A música estava difusa no ambiente, como a própria fumaça, mas era suave e alegre.

Algumas poucas pessoas estavam dispersas no salão, bebendo sozinhas ou aos pares. A mesa mais ocupada estava no centro, com duas mulheres e dois homens, que levantaram seus copos ao ver a Senhora entrar. Havia uma quinta cadeira a sua espera, assim como um pequeno copo. Ela se sentou no lugar vago e imediatamente sentiu o cheiro adocicado e forte da sua bebida favorita: licor de café.

A moça loira de olhos claros que parecia uma princesa, apesar das suas vestes sóbrias de um vermelho escuro, foi a primeira a falar:

- Feliz ano novo, velha amiga!

- Feliz ano novo! – a Senhora ecoou. Ergueu o copo e bebeu, ao que os outros a imitaram.

Cada um deles bebia algo diferente do outro, em copos igualmente singulares. A moça que a cumprimentara bebericava delicadamente seu choconhaque de um copo de vidro grosso e ricamente esculpido. Já a moça de longos cabelos castanhos e grandes olhos escuros bebia apenas chocolate quente de uma delicada caneca de porcelana, cuidando para não enroscar nos cantos da mesa as longas mangas sedosas do seu vestido laranja e rosa; seu sorriso era fácil, brilhante e extremamente contagiante. Os outros dois homens louros bebiam vinho tinto e saquê em copos adequados para tais bebidas. O primeiro, de longas barbas e olhos verdes profundos e analíticos vestia uma túnica igualmente verde com detalhes em azul escuro e fios brancos, lembrando as ondas do mar. O outro usava uma vestimenta com muitos tons de cinza e preto coroado por uma cartola que o tornava muito elegante, apesar de seus modos serem vagos e simples.

A Senhora baixou o capuz negro que encobria suas feições e seu vestido púrpura para ver melhor seus amigos e companheiros, sorrindo largamente. Todos eles eram moradores daquele vilarejo, e ela se sentia honrada em poder comemorar o ano novo em tão esplêndida companhia.

Erguendo o copo mais uma vez, abrindo as comemorações:

- Damas e cavalheiros, meus amigos. À noite! A mais um ano que deixamos para trás e outro que encontraremos pela frente. À vida e suas histórias! À morte e suas memórias! À glória e à eternidade. A nós, que tudo vemos, sentimos e sabemos. A nós que criamos! Que nunca falte tinta em nossas penas e papel em nossas mesas!

- Que nunca nos faltem velas na noite! – todos responderam em coro, e os copos tilintaram juntos sobre a mesa.