quinta-feira, 18 de abril de 2013

Quatro de paus

"Truco!" gritava o rapaz batendo na mesa segurando sua última carta com a outra mão. "Truco!" repetia ele como se quisesse ser ouvido pelo bêbado inconsciente do outro lado do bar. Os copos na mesa balançavam com as batidas, a pilha com as cartas ao centro, desgrenhada, e a única carta à mostra, um três de ouro.

A insegurança não estava presente do outro lado. "Seis!" bradou o rapaz ao seu lado. "Seeeeeis!"

Em qualquer outro ambiente essas pessoas estariam prestes a ser expulsas do estabelecimento. Ali, eles eram quase uma atração, os gritos faziam parte do ruído. E eles não pararam.

"Nove! Quero ver! Nove!"

Alguns clientes se viraram para olhar para a mesa onde os quatro jovens jogavam. Chegaram há pouco tempo e já estavam animados assim. "Apenas uma garrafa de cerveja" disse um outro cliente balançando a cabeça e rindo.

"Doze!" e essa era a deixa para um jogo muito curto. E assim foi: o rapaz do primeiro grito jogou sua carta à mesa para mostrar o que estava guardando para o momento: um quatro de paus. "Mata o gato, papudo!"

Os outros três ocupantes da mesa, até então risonhos e barulhentos, ficaram sérios, alternando entre o constrangido e o curioso. Receoso, o outro baixou a carta: outro quatro de paus. Os outros dois fizeram o mesmo, e mais dois quatros de paus foram revelados. Isso era no mínimo constrangedor. Algo não fez sentido, mas ninguém queria tentar explicar.

Juntaram as cartas e começaram outra vez, dessa vez em silêncio.