quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sopro

As velas se apagaram uma a uma com o sopro. Mais um aniversário estava chegando ao fim. Não se lembrava desde quando, mas já fazia algum tempo que este dia se tornara como outro qualquer. As mesmas pessoas, as mesmas felicitações. Os presentes variavam, mas ultimamente livros e cartões eram constantes. E meias. Sempre recebia meias. 

Empilhou as novas aquisições na mesa da sala e foi até a varanda. Lá encontrou o lugar que pretendia sentar já ocupado e com um suspiro pesado deu meia-volta. 

- Parabéns, garoto. - A voz veio do ocupante da cadeira. 

Ele não fazia ideia a quem pertencia a voz. Um tio distante? Um novo amigo de seus pais? Achou de bom tom responder já que era o aniversariante. 

- Obrigado. - Fez menção de sair novamente, mas o estranho continuou a falar. 

- Espero que tenha gostado do meu presente. 

O garoto se aproximou na tentativa de reconhecer o interlocutor. Ele usava uma capa grande, era bastante velho e a única coisa que se destacava  da veste negra era uma corrente com uma pequena ampulheta. A areia dentro dela estava parada.  

- O livro? - Chutou - Eu adoro livros. 

O homem pigarreou. 

- Meu presente para você foram asas. Você as recebeu quando nasceu. 

Isso era algo inusitado. 

- E para que eu vou querer asas?

O senhor se endireitou na cadeira e olhou para algum lugar distante. Aquela era uma pergunta mais comum do que ele gostaria. Ninguém entendia a importância desse presente e havia pessoas que passavam a vida toda sem saber de sua existência ou sequer usá-lo apenas uma vez. 

- Para voar longe e descobrir coisas novas. Para sonhar e arriscar. Você pode ir longe com asas, não existe melhor presente.  

Os olhos do garoto brilharam com a ideia. Asas? Nunca havia pensado que poderia ganhar isso de presente. Talvez as coisas começassem a mudar na sua vida. 
Ele virou de costas, torceu o pescoço e então voltou a posição anterior visivelmente desapontado. 

- Não consigo vê-las. 

- Elas tem um momento especial para aparecer. 

- E quando é este momento? Quando eu completar uma determinada idade?

O velho balançou a cabeça e sorriu.

- Quando você perder o medo de voar. 

O garoto pensou um pouco, sorriu e agradeceu. O senhor foi deixado sozinho na varanda até que uma voz diferente chamou sua atenção.

- Quebrando as próprias regras novamente? - A voz lhe era familiar e não precisou olhar para saber quem estava falando. 

- As vezes as pessoas precisam de um pequeno empurrão. Um sopro. - Ele segurou sua pequena ampulheta com força. A areia voltara a correr.