segunda-feira, 27 de maio de 2013

Duas cervejas pelo sossego

Sob os olhares desinteressados de seus companheiros, o rapaz, apenas porque achava divertido, continuava batendo a caneta entre os dedos da mão aberta sobre a mesa. Dizem que é um jogo antigo das tavernas medievais que tem por objetivo demonstrar virilidade, destreza e, de quebra, ganhar apostas. A diferença é que os antigos faziam com facas, e os erros por vezes custavam dedos.

Um dos espertalhões da mesa, o único que tomava limonada, disse com ar malicioso: "Com a caneta não tem graça. Queria ver você fazer isso com uma faca de verdade". Era um rapaz irritante; estava ali porque conhecia alguém que conhecia essas pessoas, mas sua presença e suas constantes provocações incomodavam a maioria.

Um senhor mal vestido que por vezes estava pelo bar levantou de uma mesa distante e se aproximou do grupo. Com olhos vermelhos e um odor pestilento de cigarro e álcool, o homem de barba mal feita deixava claro que não fazia muita coisa de sua vida além de estar no bar. Pronunciou com a língua travada "Eu tenho uma faca". Pôs a mão sobre a mesa e continuou. "Se eu fizer a volta completa duas vezes em menos de cinco segundos, vocês me pagam uma cerveja. Que tal?"

O silêncio tomou os presentes por um instante. O mesmo espertalhão de antes, iluminado pela expectativa de ver uma pessoa se ferir voluntariamente, especialmente um bêbado qualquer, se apressou em responder assim que foi capaz: "Duas cervejas. Eu mesmo pago".

Os colegas de mesa perceberam o cenário que se formava e murmuravam procurando formas de impedir que algo desagradável acontecesse. Antes que alguém tivesse a chance (ou a perspicácia) de intervir, porém, o homem tirou uma faca retrátil do bolso e disse com uma firmeza incomum aos ébrios: "Feito". Era decidido, não queria ser interrompido.

Com uma destreza quase sobrenatural, lançava a faca para cima e para baixo, acertando a mesa com violência e arrancando pequenas lascas de madeira. As marcas precisas de golpes de faca entre os dedos não deixavam dúvidas de que aquela aposta estava ganha. Nem uma gota de sangue foi derrubada.

Quando terminou, levantou e olhou triunfal para o chato. Um garçom se aproximava com duas garrafas de cerveja e um copo, como quem já havia antecipado o resultado. As duas voltas correram em três segundos, no máximo.

Alguns riram, outros olhavam boquiabertos para as feridas na madeira. O bêbado pegou as duas garrafas de cerveja, as pôs em frente ao espertalhão e serviu o copo. "Toma isso e para de falar besteira". Roubou-lhe o copo de limonada e voltou para sua mesa, onde bebia sozinho todas as noites.