segunda-feira, 13 de maio de 2013

O embate do natural

Dizem que o silêncio acalenta a alma. Quem disse algo assim nunca esteve em um traje espacial consertando um painel no vácuo a milhares de quilômetros da Terra.

Para evitar que o técnico tivesse uma crise nervosa enquanto apertava seus parafusos, exposto às mazelas do cosmo e ao silêncio absoluto, uma música suave tocava internamente em seu capacete. O ambiente quase ficaria poético, não fosse o tédio das já duas horas suspenso em gravidade zero sem fazer outra coisa.

Naquele momento, o homem se lembrou de algo interessante: a Terra estava particularmente próxima da colônia de mineração de asteroides. Decidiu dar uma pausa em seus afazeres e olhar para trás por alguns minutos.

Era um ponto azul sobre um fundo escuro, nada muito maior que isso, nem sequer era majestoso. Também não era particularmente brilhante, não impunha mais respeito que os belos lençóis de estrelas que cobriam profundamente o véu escuro que se espalhava ao redor. Era, porém, sua casa, seu porto seguro inalcançável. Por quantos anos os humanos se sentiram presos ao chão? O quanto ansiaram por aventuras longe de casa? Agora, esse humano em específico só pensava em voltar.

Esticou sua mão coberta pela malha branca de seu traje espacial. Como era pesado fazer movimentos longos... aquele não era o lugar dos humanos e aquela não era a forma natural para um homem se movimentar. Pessoas no vácuo não sobrevivem... mas ele estava ali, artificialmente protegido da fúria da natureza.

Deus prendeu os pés ao chão e não deu a capacidade de voar, o ser humano criou suas próprias asas. A natureza tirou pernas, o ser humano adaptou rodas. A existência humana até ali foi uma eterna batalha para superar as limitações impostas pela realidade. Os sábios diziam "A natureza sabe o que faz", os teólogos diziam "Deus escreve certo por linhas tortas". O que dizer dos incautos que decidiram fazer melhor com as próprias mãos?

Será afinal que existe um Deus além desse véu de escuridão lançando provas contra nós? Incentivando os imprudentes a crescer? Forçando esse animal tão orgulhoso a lutar?

Não, as limitações e os desastres não são o castigo divino, são o empurrão para a independência. Aquele ponto azul não é mais uma jaula, é o mais belo ponto azul a ser visto por humanos de um local onde eles não deveriam estar. Ali havia beleza não pela majestade, mas pelo significado. Deus delimitou o território, os humanos, petulantes, saltaram o muro.

Agora há um homem no vácuo apertando parafusos, apenas preocupado em não ficar entediado. Mais um desafio superado, um jogo onde nos lançam desafios e nós enfrentamos por não aceitar essa sabedoria. O técnico apontou o indicador para a Terra como quem desafia o divino. Fizemos nossa jogada, agora é sua vez.