quarta-feira, 15 de maio de 2013

Serendipity

O parque estava cheio aquela noite. Crianças andavam para todos os lados carregando doces e brinquedos. As pelúcias conquistadas no tiro ao alvo corriam de mãos-dadas com os respectivos ganhadores enquanto o doce cheiro de caramelo borbulhando no tacho da senhora de um olho se espalhava pelo ar. 

- Vai uma maça do amor aí, meu jovem? - A senhora ofereceu sorridente. 

Ele apenas balançou a cabeça e agradeceu. O ruim de falar com as bruxas do norte era que você nunca sabia se elas estavam piscando ou flertando com você. 

Continuou o caminho por entre as tendas. Sonhos engarrafados, pelúcias encantadas, doces que duravam para sempre. Fadas vendendo pingentes da sorte que realmente funcionavam, anões vendendo ouro amaldiçoado de terras distantes. Ninguém nunca sabia onde eles conseguiam comprar aquilo. 

Ao longe um senhor com uma pequena plateia fazia um show com marionetes. As crianças sentadas no chão aplaudiam entusiasmadas e jogavam moedas dentro de um chapéu velho. O show durou apenas mais três minutos e então tudo ficou em silêncio novamente. 

- Eu sabia que iria encontrá-lo aqui. - Ele parou ao lado do senhor que estava recolhendo o dinheiro do chapéu. 

O senhor sorriu. Não precisou virar para saber quem estava ali. Eram velhos conhecidos. Mais velhos do que o tempo dos humanos podia contar. Permaneceram em silêncio por alguns minutos, ambos sentados no meio-fio. O senhor examinava uma de suas marionetes e traçava seus fios com os dedos. 

- Não é curioso, meu amigo? - Ele disse distraidamente. Vendo o olhar interrogativo em resposta ele apenas continuou. - A vida. Tudo. Essas pequenas linhas que nos ligam uns aos outros. Essas linhas coloridas, finas, largas, indestrutíveis. Veja você mesmo. - Com apenas um gesto do velho o mundo a sua volta mudou. Milhares de linhas coloridas e brilhantes surgiram. Vermelhas, roxas e douradas, elas se entrelaçavam e se ligavam, indo de uma pessoa a outra. Pessoas que estavam predestinadas a se conhecer. Pessoas que já se conheciam. Um verdadeiro arco-íris de linhas. O mundo, aos olhos do velho, era um enorme tear no qual a base era nada além de nós mesmos. E o destino comandando a agulha. 

Passou alguns segundos contemplando as linhas. Era uma das coisas mais bonitas que já vira. - Então você quer dizer que tudo está predestinado? Que você não nos deixa nenhuma escolha?

- Muito pelo contrario meu amigo. Vocês são donos de todas as escolhas. Vocês as vezes não percebem quanto poder tem nas mãos. É infinito. Essas linhas ligam um humano ao outro. Mas quem decide se elas se tornarão fortes cordas douradas ou fiapos roxos são só vocês. As vezes vocês conhecem pessoas muito especiais que estão destinadas a mudar suas vidas. Mas elas não sabem disso, nem vocês. E cabe a vocês permitir isso. Ninguém conhece ninguém por acaso. Algumas cordas são mais fortes que outras. Algumas são tão finas e fracas que se rompem antes mesmo de nós nos darmos conta. Mas cabe única e exclusivamente a vocês fortalecer isso. Eu dou a chance, vocês decidem se querem ela ou não. Minhas costuras e nós são resultados das suas escolhas. 

- Então nada acontece por acaso? - Repetiu. 

- Nada. Mas isso não quer dizer que você não vá ter boas surpresas.