quarta-feira, 29 de maio de 2013

Sorte

Estava sentado na cadeira há alguns minutos. A sua frente uma moeda era arremessada e retornava para seus dedos, ritmicamente, sem falhar. 

Cara. Coroa. Cara. Coroa. 

- Então chegou mais uma vez o dia de irmos embora? - O senhor finalmente falou, afastando os cobertores e sentando na cama do hospital. 

- Hoje é dia quatro de junho, Oswald. O mesmo dia que eu sempre venho lhe buscar. 

- O dia que eu deveria ter morrido. Quatro anos atrás. - Oswald fitou o teto e deu um longo suspiro. 

O rapaz de sobretudo negro apenas continuava encarando a moeda. 

Cara. Coroa. Cara. Coroa. 

- E dessa vez nós vamos de verdade, não vamos? 

- Ela veio lhe visitar? 

Oswald apenas balançou a cabeça. 

- Bom. - O rapaz levantou da cadeira e colocou a moeda no bolso. - O que acha de fazermos uma aposta?

- Mais uma? - O senhor perguntou, subitamente animado. 

- Eu nunca perco apostas, por isso gosto delas. Se der cara, você vence. Seu prêmio será mais um ano de vida. Se der coroa, eu venço. E nós finalmente vamos embora.

Ele concordou com os termos. Há quatro anos ele vinha lhe visitar e fazia a mesma aposta. Oswald nunca tivera sorte na vida. Sua família o deixara e até hoje esperava sua esposa retornar, para lhe pedir desculpas por tudo que tinha feito. Mas ela nunca veio. 

A moeda foi lançada e girou lentamente, até cair nas costas da mão do homem. 

Cara. 

Oswald suspirou. Ganhara de novo. Provavelmente toda a sua sorte havia se acumulado para ser gasta nesses últimos anos. 

- Vejo você ano que vem, Oswald. 

O velho sorriu. Teria mais um ano e quem sabe ela iria aparecer. Ganhara da morte novamente. 

O rapaz sorriu brevemente e cruzou a porta. Colocou a mão no bolso do sobretudo e depositou a moeda de duas caras lá.