quinta-feira, 9 de maio de 2013

Um Castelo Vazio

Dois pares de olhos curiosos espreitavam as ruínas. Não eram muito grandes, nem muito antigas. Apenas um pedaço do telhado havia desabado, mas o madeirame que o sustentava estava inteiro, assim como o restante da Torre logo abaixo. As pedras estavam tomadas por hera e limo, tornando o cenário ainda mais sombrio, úmido e impregnado de reverência. A construção espelhada no lago era idêntica, à exceção de eventuais ondulações causadas por um vento muito leve.

Os pares de olhos curiosos observavam, suspensos no tempo como se nem eles nem a Torre pertencessem a este. O lugar não estava vazio há muito tempo, mas ninguém que estava vivo hoje conhecera pessoalmente seu último inquilino.

A Menina, dona de um dos pares de olhos curiosos, finalmente se cansou e abaixou o olhar para os próprios pés. A grama em volta deles estava alta.

- Que triste! É tudo tão vazio aqui. Tão sem vida.

- Como assim? - o Menino retrucou, verdadeiramente confuso. Seus olhos curiosos estavam fixos na janelinha mais alta da torre, onde só se via escuridão.

- Olha só pra isso! Ninguém mora aqui há décadas! Está começando a cair aos pedaços. Uma torre dessas perdida assim no meio de uma planície sem nada é tão... tão... solitário.

- Não acho. Pense que alguém, em algum momento, morou aqui, senão essa torre não existiria. Talvez fosse uma princesa, ou então uma feiticeira que precisou se esconder, pois seus poderes eram muito perigosos para o resto do mundo. Deve haver uma masmorra também. Imagine quantos prisioneiros não estiveram presos aqui, ou então monstros. E quantos cavaleiros já devem ter tentado invadir a torre? Cinco, dez, cinquenta? Todas essas pessoas e criaturas passaram por este lugar. Mesmo que esteja abandonado agora, quem disse que ninguém pode consertá-lo e voltar a morar aqui?

- Essas coisas só existiram na sua cabeça. Nada disso aconteceu.

- Você não sabe! Pode ter acontecido tudo isso, e muito mais. Esse é o lindo desse lugar: seu passado contém tantas possibilidades quanto o futuro, pois nós temos a prova bem na nossa frente de que este lugar já teve uma história. E nós não sabemos de nada que aconteceu; nem sequer o motivo do seu abandono. São tantas as possibilidades de passado que chego a ficar tonto... E todos esses passados podem fazer parte do nosso futuro, se a gente o explorar.

A Menina lançou um demorado olhar para a Torre. Seus olhos não tinham mais a curiosidade frustrada de antes, mas exibiam um brilho diferente. Era como se ela tivesse sido tomada pelo espírito atemporal e investigativo do qual o menino falava.

"O passado está vivo no futuro... tanto quanto o futuro reflete o passado."