quarta-feira, 26 de junho de 2013

Deriva

Arrumou as coisas e saiu. Caminhou por entre as ruas vazias. Tudo acontecia muito devagar, se sentia dentro de um filme. 

Fantasmas ocupavam as ruas e prédios daquela cidade abandonada. Ele não tinha medo deles, há muito tempo aprendeu que eles não lhe fariam mal. Evitava fazer contato, mas gostava de observa-los. Era engraçado como estes fantasmas demonstravam sentimentos entre eles. Andavam de mãos dadas, sorriam e choravam. Ele já não sabia o que era sentir nada daquilo. Amor, raiva ou adrenalina. Sabia o que era frustração e não sabia que nome dar para aquele aperto no peito, a única sensação que o seguia. Angústia? Do que? 

Escorregou para dentro de um dos grandes prédios e foi até uma das várias salas ao fundo. Os fantasmas também estavam lá. 

Passou por vários deles até achar o lugar que deveria ser seu destino e sentou em um dos compartimentos. Era simples, apenas uma mesa e objetos de escritório. Tinha também um porta-retrato. Observou a foto por não mais que cinco segundos. Era ele. Ele e mais alguém.

Quem era mesmo?

Alguém parou ao seu lado. Mais um vulto?

Despejou uma pasta a sua frente. 

- Você está atrasado. Termine isso hoje. - A voz era distante. 

Abriu a pasta e começou a trabalhar, como fazia todos os dias. Os movimentos eram automáticos, quase programados. Já não precisava pensar, apenas fazer.  

Os vultos ao seu lado faziam a mesma coisa que ele. 

Era mais um dia normal na sua vida.

Na vida que ele esquecera de como viver há muito tempo. Na cidade abandonada cheia de fantasmas. Fantasmas que ainda insistiam em viver.