quinta-feira, 6 de junho de 2013

Leia-me

Um entre tantos. Seus vizinhos eram mais inteligentes que ele. Explicavam um bocado de coisas com palavras derivadas do latim, do grego e da precisão. Alguns estavam cheios de números, tantos que excediam o volume das páginas e se derramavam para fora dos cérebros tão logo os exames acabavam.

Ele era diferente. Seus números eram poucos e escritos por extenso. Sua lógica era tão falha quanto as relações humanas e suas descrições eram rarefeitas de tanta poesia. Era magrinho, como o mundo que continha. Magrinho, pois estava sempre vazio de respostas, sempre perguntando, sempre instigando. Magro, pois para lê-lo era preciso preencher o tempo de gordos silêncios.

Mas um descuido o colocou na estante errada. Aquela estante estava cheia de respostas, ninguém notava um livro tão vazio em meio aos tijolos do conhecimento. Seguia os dias assim sozinho à espera de cinco dedos. Apenas cinco dedos e uma palma, e sua vida mudaria completamente. Cinco dedos e uma palma e um par de olhos. Era tão pouco o que pedia.

Dedinhos o encontraram. Dedinhos curtos e gordinhos, dez deles foram necessários para puxá-lo da fenda entre o átomo e o buraco negro. Que alegria, duas palmas sustentavam-no aberto! Aquilo era aconchegante, muito mais que o esperado. Também luz, muita luz aqueceu sua clorofila negra e compassada, e ele cresceu a olhos atentos.

Dez dedos, duas palmas e um par de olhos curiosos. Aquilo sim era felicidade!