segunda-feira, 24 de junho de 2013

O anel de plástico

O grupo se divertia às gargalhadas ao redor da mesa. Uma noite particularmente agradável de sexta feira trazia, junto com o prenúncio do fim de semana, as alegrias típicas das noites boêmias.

Mas noites boêmias trazem consigo suas próprias peculiaridades.

O rapazinho loiro e franzino de camiseta amarela sempre estava na mesma mesa, sempre sozinho com uma carteira de cigarro, e sempre com a mesma camiseta. Naquela noite em especial ocorreu sua primeira interação com outros clientes, e foi com o grupo de amigos. Com um olhar carregado de preocupação e aflição, varreu os ocupantes perplexos da mesa e se reteve na moça ruiva de cabelos cacheados com uma garrafa de refrigerante, o único integrante da mesa que não bebia. A motorista da noite.

A aproximação do estranho fez todos à mesa ficarem em prontidão, mas ficou logo claro que a intenção do pobre coitado não era agressiva. Ao invés disso, parecia querer abrir algum segredo para ouvidos dispostos. Comprando a brincadeira, a moça se aproximou para ouvir.

"Eu não tenho tempo. Guarde isso, outro dia eu pego de volta. Eles não podem encontrar".

Com medo de receber um papelote de drogas ou uma arma, a garota recuou, fazendo com as mãos sinal negativo, tentando reagir com um "ei ei, pera, não tenho nada a ver com isso". O loiro, porém, deixou o objeto sobre a mesa e correu como se não houvesse amanhã. Qual era o segredo? Um anel de plástico de brinquedo, "daqueles com a florzinha que você assopra e faz barulho", nas palavras de alguém que testemunhou a cena.

Era hilário. Uma pegadinha talvez? Ninguém sabe ao certo. A moça ria a ponto perder o fôlego, balançando suas madeixas vermelhas incandescentes para cima e para baixo. Guardou o objeto para si como lembrança, para que ao menos tivesse algo para mostrar quando contasse a história. A noite seguiu como qualquer outra, sem outras interrupções.

Na semana seguinte, o estranho garoto loiro não estava no bar, algo inédito nos últimos dois anos. O anel de plástico estava no bolso da moça que estava "encarregada do segredo", para concluir a brincadeira, mas não foi dessa vez. Ao invés dele, porém, homens de terno apareceram no bar e passaram mais de dez minutos fazendo perguntas para um garçom. Por fim, se dirigiram à mesa do grupo e mostraram uma foto. "Vocês viram esse homem?". A foto era a do rapazinho, naturalmente. Sem saber o que responder, alguns disseram que sim e outros que não, mas o consenso era de que ele não estava lá essa noite.

Em sua casa, ela pôs o anel sobre a mesa e passou a fitá-lo por alguns minutos. Decidiu abrir a peça de soprar para descobrir se havia algo escondido. Com algum esforço o fez, e nada encontrou. "Que ideia idiota", comentou para si mesma. "Isso não faz o menor sentido".

De madrugada, durante o sono da família, um invasor entrou pela janela do apartamento. Vasculhou silenciosamente a casa toda até encontrar sobre a mesa o anel desmontado. O montou de volta, o guardou no bolso e saiu pela mesma janela, tomando o cuidado de fechá-la ao final.