quarta-feira, 12 de junho de 2013

Pequenas Aventuras

Tinha a sensação que iria derreter por entre as tábuas do convés e escorrer para o céu sem fim. Era o terceiro dia de um verão insuportável que fazia o navio ficar estancado dentro de uma massa sólida e abafada de ar quente. 

- E ela manejava a espada como um homem. Estou lhe dizendo meu filho. Parecia um homem com corset, saia e pernas longas. E que pernas! - O capitão estava esparramado no chão de madeira quente ao lado de Shin.

- Você acha que teremos vento em breve? Precisamos continuar a voar. - O garotinho perguntou sem muita esperança. 

O velho apenas tomou outro grande gole do caneco que estava segurando, limpou a boca com as costas da mão e esticou-o para Shin. - Você se preocupa demais garoto. Tome um gole e aprecie esse verão. Vamos, pode tomar, será nosso pequeno segredo. 

O garoto segurou o caneco e se surpreendeu ao descobrir que era muito mais pesado do que parecia. Aproximou do rosto, torceu o nariz e virou a bebida em sua boca. 

Parte do rum desceu por sua garganta e outra parte saiu pelo mesmo lugar que entrou. Shin tentou cuspir até a ultima gota da bebida amarga. Como podiam gostar daquilo?

O capitão riu. - Eu sabia que um jovenzinho como você não aguentaria sequer um gole.  Quem sabe daqui alguns anos. Essa bebida aqui é das boas. Dizem que ela pode exorcizar todos os seus demônios. 

Shin limpou a boca novamente e se levantou. Além do calor insuportável agora também tinha um gosto horrível para lhe incomodar. Caminhou alguns segundos procurando um lugar fresco dentro do navio e o único que achou foi a cabine do capitão. Ali também fedia a bebida, mas pelo menos não era tão quente. 

Ficou em pé encarando o vasto céu a sua frente. Gostaria de navegar por ele e mergulhar nas nuvens brancas e fofas. Segurou o leme e suspirou. 

Em questão de segundos Shin estremeceu. Algo estranho estava acontecendo. Uma enorme massa se aproximava do navio. Era grande, tinha asas e um boca cheia de dentes. Ela vinha voando rápido e certamente iria colidir. Um segundo susto fez o garotinho tremer. Não era uma massa, era um dragão! Eles estavam sendo atacados por um dragão.

O bicho se aproximava a cada segundo. Eles precisavam sair dali, mas o capitão estava longe. Tomado de uma súbita coragem Shin segurou no leme. Se ele tinha achado o caneco pesado, aquilo ali era um bloco de concreto. Não importava quanta força ele fazia o leme não saia do lugar. 

"Vamos morrer." - Pensou.
 
Tudo o que aconteceu em seguida foi rápido demais para ele entender. O leme finalmente se mexeu, mas ao mesmo tempo ouviu uma voz grave no fundo da sala. O capitão se aproximava, empurrou Shin para o canto e colocou o leme na posição inicial. 

- Temos que fugir do dragão! - O menino gritou. 

- Que dragão? Está maluco menino? Da próxima vez que encostar no leme vai limpar o convés por um mês!

Shin olhou sem entender para o capitão. O Dragão ainda estava ali. Branco e com formas suaves. Estava se dissipando, se misturando ao céu. Passou mais alguns segundos em pé e então resolveu voltar ao convés. Não sabia o que tinha acontecido ao certo. Não sabia se tinha exorcizado e lutado contra um de seus demônios ou se fora apenas uma visão ocasionada pelo calor e pelo rum. 

Chegando no convés, porém, todas suas perguntas foram esquecidas. O vento voltara a soprar.