quinta-feira, 25 de julho de 2013

Centelha

Passos rítmicos e pesados se alastravam pelo corredor sem vida. As celas, perfeitamente silenciosas, davam a impressão de estarem vazias, não fosse pela claridade por entre as barras moldando as sombras de alguém. Um corpo. Apenas um por cela. 

Uma placa prateada, perfeitamente quadrada e gasta, fixada na frente de cada fechadura, possuía algumas letras correspondentes a quem estava ali, oculto pelas sombras. 

As letras não diziam nome, cor ou estatura. João? Felipe? Clara? Isso não importava aqui. Loiro, morena e pele oliva não eram atributos para definir o que estava no pequeno quadrado. As únicas letras ali impressas, carcomidas pelos anos de confinamento, indicavam apenas uma coisa: o crime cometido. 

A primeira cela possuía uma frase: Se rebelou contra seu estado. Já a segunda: Roubou comida. 
E as próximas: Gritou com um superior; Se mostrou insatisfeito com o governo; Incitou revolta; Argumentou com superior. 

Os passos continuavam, sem nem precisar parar para ler cada crime. Cada sombra encolhida e assustada era apenas definida pelo que cometeu um dia. 

Uma das placas, porém, lhe chamou atenção. Possuía apenas uma palavra e essa poderia ser lida com um passar dos olhos. Mas os passos pararam. Pararam por muito além do tempo necessário. 

“Sonhou”. 

Seus olhos repassaram pela palavra uma, duas, dez vezes. E então sua boca se abriu, antes mesmo de conter suas palavras. 

- Então você sonhou? 

O silêncio era pesado e a resposta demorou a vir:

- Sonhei - Respondeu a sombra, no canto da cela, sem qualquer emoção. 

- Sonhou com o que?

Um murmuro pesado veio de dentro da cela. - Eu queria mudar o mundo. Besteira não?

A pessoa olhou para os lados e confirmou não estar sendo ouvida e então se aproximou da cela.


- Realmente uma besteira. Não sei como você ousou fazer isso. Você e esses outros milhares de sonhadores, todos presos. Perdendo uma vida confinados por tentar mudar algo. 

A sombra ficou em silêncio por alguns segundos. O homem achou que não receberia resposta, mas quando estava se virando uma voz fraca, hesitante e contida fez a pergunta esperada: 

- Tem mais gente presa por sonhar?

- Milhares. Ridículo não?

Não houve mais resposta. O silêncio cobriu o lugar como um manto grande, escuro e pesado. Mas dentro daquela cela, com uma placa de apenas uma única palavra, se iniciou uma pequena faísca de luz. Uma faísca há muito contida e esquecida que voltou a queimar. Tímida e calada, mas consumindo o ar a sua volta e tentando crescer. Alcançando a combustão presa no peito de cada uma das sombras daquela prisão. Queimando de dentro pra fora, soltando as ideias ali esquecidas há muito tempo.
 


Todos a ponto de explodir.