segunda-feira, 8 de julho de 2013

Evolução social

Foi em um dia frio que o escritor viu passar em frente à sua casa um carrinheiro, que buscava pacientemente seus pequenos tesouros de latas e papelão nas lixeiras dos mais abastados. Não era a primeira vez que essa cena acontecia, mas por algum motivo, nesse dia em específico, pareceu inspirar reflexão.

O escritor observava o homem de roupas amarrotadas e sujas chegando, puxando seu carrinho pesado e com um cachorro toscamente preso à armação de metal por uma guia mais curta que o pobre animal gostaria. Aquilo era um quadro sobre a realidade: o homem de sua janela, em seu ambiente aquecido e protegido, observando o outro, que não teve as mesmas oportunidades, penar.

“Onde está o erro?” perguntou a si mesmo em um murmúrio. “O que está errado com a sociedade?”. Tomou um longo gole de seu cálice de vinho e, com o olhar distante, deixou sua mente divagar.

Pensou em muitas questões. Seu otimismo, porém, o fazia traçar soluções mentais. Dizia a si mesmo que o rumo natural da humanidade era resolver os próprios problemas e minimizar as próprias mazelas. “A renda aos poucos se distribui e a tecnologia barateia. O conhecimento se espalha e aos poucos todos terão as mesmas oportunidades”.

Era fácil pensar nisso. Deu a seu filho no mês anterior um aparelho, um telefone celular, que dentro de si carregava um mar de tecnologias que à própria infância teriam parecido alienígenas, ou ao menos peças reservadas a milionários. Hoje, o artefato era melhor, mais leve, mais bonito e assombrosamente mais barato.

Na semana seguinte, os murmúrios divagadores e seu otimismo foram respondidos, pois algo mudou. Em outra manhã fria, o mesmo carrinheiro, com o mesmo carrinho de lixo e o mesmo cachorro, passava pegando suas peças de papelão em suas roupas sujas e amarrotadas, mas dessa vez estava falando ao celular.