terça-feira, 13 de agosto de 2013

Em extinção

No cartaz lia-se: “DVDs à venda. 2 por R$ 5.” A casa ficava numa rua pouco iluminada, por onde só se trafegava para desviar do trânsito da rua principal. Atrás do muro do anúncio havia uma casa térrea, espaçosa, com uma porta aberta. Era uma videolocadora.

Era. Pois agora o que se alugava vendia-se. As prateleiras esvaziadas deixavam à vista mobília e paredes amareladas, com a pintura descascando aqui e ali. Os melhores títulos já haviam sido levados.

De trás de um balcão, um senhor cumprimentava os recém-chegados: “Olá... Fiquem à vontade...” Seus cabelos branqueando aproximavam-no dos sessenta anos.

Não demorava muito, passava a contar sua vida e a da locadora:

“É uma pena... uma pena. Mas não dava pra continuar. Ninguém mais quer alugar filme. Pelo mesmo preço a pessoa compra um pirata. Ou de graça baixa da internet. Isso aqui – olhava a um redor distante – tem vinte anos. Nunca vi nesse tempo todo tanta locadora fechando. Esta é só mais uma...”

Perdia a locadora, e perdera há poucos dias a mãe.

“No começo o pessoal fazia lista de espera pro filme. Vinha até a locadora esperar lançar. Quanta amizade fiz nessa de locar e devolver. Minha mãe ficava espantada com o sucesso da loja. Acho que o que a deixou fraca pra doença foi a tristeza de ver isso aqui às moscas...”

Não chorava, não ficava sério demais, mas cada palavra era um pesar, cada gesto infeliz. E cada palavra e cada gesto esvaia-se, perdia-se naquele redor que só o senhor via, ante a desilusão dos corredores, prateleiras e uma parte de si vazios.