quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Muito Barulho

Mesmo antes de avistar a cidade, o Bobo-da-Corte já ouvia seus sons característicos: buzinas, sinetas, vozes sem fim a se perder no horizonte. Quando finalmente a alcançou, encontrou nela um cenário peculiar. Era o meio da tarde, horário em que as ruas do comércio deveriam estar cheias de transeuntes e lojistas a exercer transações, atrapalhando o trânsito de automóveis e carroças, que seriam obrigados a desviar das pessoas, com o opcional xingamento e buzinada para se fazer notar.

Entretanto, em vez de uma cidade enérgica e cheia de vida, o que viu foi bem diferente. Havia sim muitos motoristas e cocheiros nas ruas, mas seus veículos não saíam do lugar. Em vez disso, alguns se limitavam a se abanar por causa do calor, recostados em seus assentos e apertando a longos intervalos as buzinas. As pessoas paradas nas frentes das barraquinhas da feira estavam apoiadas no balcão com displicência, reclamando em bom volume do alto preço das hortaliças sem sequer olhar para o vendedor, que retrucava no mesmo tom sem se preocupar se estava falando do mesmo produto que os clientes.

Por todos os cantos da cidade, a cena se repetia. As pessoas bradavam reclamações sem demonstrarem um pingo de entusiasmo, proferiam palavrões ao andar na rua para ninguém em particular. Aqueles que ouviam os palavrões começavam sua própria saraivada de berros ao léu, nunca formando um diálogo ou sequer um monólogo coerente. Até os cachorros de rua pareciam contagiados por aquele espírito absurdo, latindo do nada para o vazio sem se darem ao trabalho de sair de suas latas de lixo.

A noite caiu, mas nem por isso a cidade se acalmou. Das casas era possível ouvir toda a sorte de brigas familiares, mas toda vez que o Bobo espiava por uma janela entreaberta via as pessoas executando suas tarefas normalmente, como se a pessoa ao lado não estivesse aos berros, choros e ponta-pés.

Tentando abafar todo aquele ruído cheio de ódio sem sentido, o Bobo começou a assoviar uma cantiga alegre de sua terra, dando pequenos saltinhos pela rua numa péssima imitação de sapateado. Para a sua surpresa, veio voando em sua direção um repolho podre, que alçara voo da janela do segundo andar de um pequeno prédio de apartamentos. Outras janelas a sua volta começaram a se abrir para mirar pequenos objetos na fonte dos assovios, acompanhadas dos mais diversos xingamentos.

- Silêncio aí!

- Fique quieto, vagabundo!

- Vá arranjar o que fazer!

- Vamos chamar a polícia se continuar fazendo tanto barulho!

Não querendo levar uma botinada na cara, o Bobo-da-Corte saiu correndo para fora daquela cidade.

Na rua com as janelas abertas, imperou um silêncio assombroso nunca antes visto na região. Aquilo deixou a população desconfortável, e logo voltou para seus berros e reclamações, retomando a rotina a que estavam acostumados.