quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Narciso

Se perdeu. Se perdeu no momento. Atropelou as horas e refez o tempo. O tempo era agora contínuo, sem quebras, sem pontos. Refez também o espaço, onde nada existia além deles. Mergulhados em um vazio cheio de sentimento, cheio de vontade e cheio de falta de constrangimento.

Corria-se o tempo, lentamente, inundando o peito e escorrendo pelos dedos. Quanto mais ganhavam, perdiam. No espaço que criou o ar era raro. Abafava, sufocava, apertava no peito e refletia no fôlego que sustentava o suspiro. Ele nunca era suficiente. 

Perdeu-se. Perdeu-se no olhar. Já não sabia mais o que era falar, seus olhos falavam. Seus olhos falavam as mesmas palavras que as dela. Eco? Seus olhos, da mesma cor, refletiam-se. Estava olhando no fundo, algo além da retina. Além do órgão. A boca era muda. A respiração curta. Perdeu-se nos olhos. Mas em quais? Nos dela, ou nos seus? Perdeu-se no reflexo, dos olhos iguais, dos seus sentimentos. Nunca mais achou o que quer que tenha deixado naquele momento.