segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Oráculo

O rapaz carregava sua mochila pesada nas costas e andava a passos lentos, um degrau após o outro. Se propôs a contar os degraus conforme subia, mas antes do milésimo já perdera a conta e mais nada havia para ocupar a cabeça.

A escada é chamada de "escada dos dez mil passos", e ela era longa o suficiente para intimidar mesmo à distância. Não se sabe ao certo se "passos" é um sinônimo de "degraus" proveniente de algum erro de tradução de alguma linguagem morta dos nativos da região, e naquele dia essa questão não seria sanada pois mais um ali subia sem fazer a contagem. Seja como for, é um caminho longo o suficiente para que o peregrino esqueça sua alma em algum trecho (ou pelo menos é o que alguns dizem).

E quem seria idiota o suficiente para andar por um caminho desses do começo ao fim? Alguém que procura pelo Oráculo, naturalmente. Ele é chamado de "Oráculo", com inicial maiúscula, pois sua sabedoria, acumulada por muitas gerações de outros oráculos e estudiosos, é uma das mais notórias de todo o mundo civilizado. Por algum motivo, porém, ele decidiu se instalar excepcionalmente longe da civilização.

Por fim, ao final da escada o rapaz o encontrou: o Oráculo! Que momento fantástico! A visão, porém, não era particularmente impressionante... o homem estava sentado sobre uma pedra mastigando uma folha de capim; vestia uma calça jeans e uma camisa polo, e tinha um relógio digital no pulso esquerdo, curiosamente o exato mesmo trajamento do rapaz. "Que coisa estranha" pensou o garoto para si. O homem olhou para o garoto com um sorriso sereno e disse "Três perguntas e, por favor, se retire. Estou ocupado". Era mentira.

"Espera aí... você é mesmo o oráculo?" perguntou o rapaz do topo de sua montanha de confusão.

"Naturalmente que sim" respondeu o oráculo com um aceno de cabeça. "Qual é sua segunda pergunta?"

O garoto sacudiu a cabeça se sentindo feito de idiota. "Você se veste como eu!"

O Oráculo respondeu com um simples aceno com a cabeça. "Ainda estou esperando a segunda pergunta. Não temos todo o tempo do mundo". Era mentira, eles pareciam ter.

"Por que você se mete em cima dessa montanha pra responder as perguntas se você é como eu afinal?"

O garoto não se sentia à vontade desperdiçando sua segunda pergunta dessa forma, mas sua inquietação precisava ser sanada.

"Para que não venha qualquer idiota me incomodar. Apenas os idiotas muito obstinados sobem uma escada dessas para fazer perguntas óbvias. Terceira pergunta, por favor".

O rapaz precisava manter o foco e controlar a frustração. Subira a escadaria com uma missão, a mais importante de toda uma história, e ela precisava ser cumprida.

"Certo... sejamos diretos então. Qual é a solução para atingirmos a paz mundial?"

O Oráculo levantou uma sobrancelha e fez uma careta típica de quem ouve uma pergunta particularmente boba. "Que pergunta estúpida... é só as pessoas agirem decentemente e se respeitarem".

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O rapaz chegou na base da montanha no dia seguinte, e seus colegas o aguardavam ansiosos. "E aí" perguntaram incertos ao ver o olhar de descontentamento do amigo. "O que ele disse?"

"Nada que preste. Vamos embora, foi perda de tempo". Isso também era uma mentira.