segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sobre aqueles olhos

- Os olhos – disse o amigo sardento de cabelos desgrenhados entre um gole e outro de cerveja. – ela tem olhos azuis. Ela é linda!

O outro olhava entediado para a própria cerveja, girando o fundo do copo para ver a espuma se bagunçar enquanto a mão passeava pelo cabelo negro e curto da própria cabeça.

- Eu tenho uma tia de setenta anos de olhos mais azuis que os daquela guria, te apresento se você quiser. – Ao invés de rir da própria piada, deixava os olhos vagarem entre copo e mesa. Como se sentia cansado...

Ele conhecia melhor que ninguém a beleza dos olhos. Os apreciava como poucos, e os olhos que não saíam de sua mente não eram azuis, e sim negros, grandes e expressivos. Olhos que contavam segredos que o universo esconde.

- Você precisa parar com isso, cara – disse o amigo com um tom de voz que beirava a irritação. – A sua vida não pode parar por conta disso.

Não era apenas a expressão que o encantava, mas também o engano. Os mais belos olhos falam da alma, mas muitas vezes mentem como nenhuma palavra é capaz de fazê-lo. E que lindas mentiras aqueles olhos contavam...

- Esquece isso, cara. Se você gostou da guria vai lá. – Levantou finalmente os olhos de sua cerveja e fitou os do amigo. – Eu não quero que você tente corrigir minha vida, deixe o meu tempo passar. Tudo vai se resolver e no final eu vou ficar bem. Não é a primeira vez.

Deliciosos e dopados nos mistérios da alma. Não há olhos tão belos no mundo quanto aqueles que dizem o “eu te amo” que a boca finge entender ao pronunciar. A boca que sorri sem os olhos é falsa, mas os olhos que sorriem sem a boca são fascinantes.

- Entendi – disse o amigo com um sorriso resignado. – Vamos mudar de assunto então.

Sim, ele conhecia melhor que ninguém a beleza dos olhos. Melhor que ninguém ele entendia que isso não se esquece ou se enterra.

Eles remontam o tipo mais belo de pesadelo: o tipo escuro, iluminado pelas luzes amareladas de uma rua deserta onde tudo é lindo, fugaz, vazio e triste. Um dia deixariam de sê-lo para se tornarem uma de suas lembranças inebriantes para suas epifanias em frente à chama da lareira em alguma noite preguiçosa de sua aposentadoria. Até lá, seriam seu tesouro perdido.