quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Noite de Nevoeiro

Não era possível enxergar nada num raio de cinco metros da casa. Lá fora só havia uma escuridão branca, densa e silenciosa. O breu da noite? Não, aquela névoa era muito pior; cegava a mente.

O chiado no rádio da cozinha continuava. Desde as onze horas da noite a estação parara de tocar as alegres músicas da temporada para emitir aquele ruído contínuo e irritante. Sem explicação, sem aviso. Se tivessem apenas fechado a estação, seu marido a teria avisado e já estaria em casa a essa hora. Mas a madrugada continuava se arrastando.

Uma batida na porta a sobressaltou. Anya correu para a porta, a esperança pulando no peito. Mas em vez do marido, quem estava parado atrás da porta era apenas Russell, um amigo do casal. Ele vinha de mãos vazias.

- Não encontramos nada lá - ele disse. O nevoeiro atrás dele ainda estava agitado pela passagem do homem.

- Quer dizer que todas as pessoas sumiram? - ela perguntou, chocada.

- Não. Nós não encontramos nada lá. Nem pessoas, nem a estação. O prédio desapareceu!

A notícia era tão absurda que demorou quase um minuto para que Anya a processasse. Desaparecido no nevoeiro. De alguma forma ela alcançou o sofá da sala e ali desmoronou. Russell sentou-se ao seu lado parecendo ainda mais perturbado.

- Quando chegamos lá, havia apenas um imenso buraco onde deveria estar o prédio. Os portões estavam lá, trancados, mas todo o resto... É como se um gigante tivesse enfiado seus dados na terra e levado o edifício para outro lugar, como se faz com mudas de plantas.

Anya achou aquela ideia nem um pouco cabível e ia dizer o quão absurda ela era quando o rádio da cozinha começou a emitir uma série de bips. Ela e Russell se olharam assustados. Os bips eram longos e contínuos. E estavam sintonizados na estação da rádio que desaparecera.

Eles foram até a cozinha. Ficaram encarando o eletrônico por tanto tempo que seus pés se cansaram. Sem conseguir entender aquele mistério e sem o mínimo vestígio de sono para consolá-los naquela noite fria, os dois amigos ficaram na cozinha discutindo as possibilidades e tentando manter a esperança de que as pessoas desaparecidas seriam encontradas eventualmente.

Parecia que os bips continuariam eternamente, mas não foi assim. Faltando poucos minutos para o raiar do sol, eles cessaram. Depois de um longo e alto chiado, uma voz feminina começou uma contagem de um a seis - o número de pessoas que trabalhava na rádio no momento em que o prédio desaparecera - e então uma voz masculina começou a falar uma série de nomes.

- Ivan, Dimitri, Natasha, Nicolai, Joeri, Katya, Anya, Marko, Inna...

... e então a rádio voltou a tocar apenas o chiado monótono e contínuo.

Anya e Russell se entreolharam. Aqueles eram os nomes dos familiares das pessoas desaparecidas, incluindo a própria Anya. Preocupado com a reação da mulher, Russell tentou acalmá-la dizendo que fosse dormir, que logo a polícia encontraria seu marido e os outros. Porém, ao sair da casa, ele teve a certeza de que ela não ficaria bem.