segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O senhor Silva

"Mas a pior coisa é ficar cego" filosofava seu José de sua cadeira entre um gole e outro de sua cuia de chimarrão. "Aquele que nasce cego nunca vai sentir falta de ver".

"Larga mão de falar besteira" disse o senhor Silva do chão, ao lado da porta da geladeira desencaixada. Apoiava uma mão na grande peça e com a outra puxava a borracha de vedação velha. "Você nem é todo cego. Ah, vê se larga desse microfone! Eu quero uma cuia". Começou a apalpar o chão procurando algo, talvez uma ferramenta.

Seu José em um gole mais longo terminou sua cuia e pegou a garrafa térmica para servir a nova dose. "É, a gente não deve reclamar do que Deus dá. Aqui, pega" disse para avisar o amigo de que a cuia o aguardava.

"Se você reclama menos, você faz muito mais" disse o senhor Silva em um tom ríspido após a pausa de seu gole. "Ao invés de ficar choramingando, me ajuda a achar a borracha nova que eu deixei por aqui".

"Tá perto do teu pé".

O homem apalpou o chão com a mão errante até encontrar a tira de borracha nova. Tomou um gole longo e devolveu a cuia vazia. "Eu não deixo meu filho fazer essas coisas pra mim. Não sou um pobre coitado" disse. "Se quiser ajudar, ajuda. Não é pra ter dó". Com o dedo encontrou a borda onde a borracha se encaixa e a colocou com cuidado.

Seu José foi até o fogão com a garrafa térmica e pôs a mão sobre a abertura da panela de água para testar a temperatura do vapor. Satisfeito, encheu novamente a garrafa e voltou para sua cadeira. "É, mas acostumar a não ter vista é o diabo" disse em tom conclusivo. O outro apenas riu.

Após alguns xingamentos e comentários mal humorados, o serviço estava pronto. Seu José levantou e ajudou o outro a erguer a porta e encaixá-la novamente. Em pouco menos de um minuto de esforço e palavrões, a peça estava em seu lugar.